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MUDANÇA DE ENDEREÇO

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Escrito por Paulo Rebêlo às 02h23 [ ]
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As mentiras que a gente conta

Paulo Rebêlo

Ela não significa nada. Foi apenas uma relação passageira, tão rápida que mal a reconheci. É assim que você tenta explicar quem é aquela mulher cujos olhos brilhavam quando passou e falou com você.

Felizmente, quem estava ao seu lado na ocasião ficou mais interessada em olhar a silhueta para depois perguntar se "ela era gorda assim" quando vocês namoraram. Mas não foi namoro, apenas um deslize afetivo, nem há de se lembrar. De repente, até se acredita na história.

E pela porta do restaurante ela se vai. O mesmo restaurante que vocês tanto frequentavam. O mesmo que, um dia, alguém disse ser a marca registrada do relacionamento de vocês, quase a segunda casa. O que mais poderia ser dito?

Você poderia pedir para ser esfolado e morto. Bastava dizer que pela porta saiu a única mulher que fez diferença de verdade. A mulher que você penhorou a alma ao diabo achando que seria a mãe dos seus filhos. Findo o contrato, ele veio cobrar das mais variadas maneiras e por tempo infinito: noites insones, relacionamentos falidos, corações partidos, parentes esquecidos, trabalhos perdidos.

Pequenas mentiras podem até ser saudáveis, desde que morram ali. As pessoas acreditam em pequenas mentiras, cientes que podem evitar grandes estragos.

Qualquer um passa incólume com uma história dessas. Afinal, se todos nós cometemos deslizes relacionais, é natural que, para outrém, aquela mulher possa ser um dos seus descuidos do passado. É um história pontual, fácil de contar, a vida segue e a cerveja desce.

Difícil é passar incólume quando uma foto dela cai de um livro na estante.

Folhas viradas - O argumento da relação passageira ruiu. Assim como rui qualquer argumento quando encontram uma foto perdida entre as páginas dos seus livros. Por mais que seja verdade, e geralmente é, o fato de você sequer lembrar que havia uma foto perdida dentro de um livro de Gabriel Garcia Marquez, lido há tantos anos, não facilita nem um pouco.

Dizer que jogou tudo fora, não sabe como aquilo foi parar ali, só vai piorar. Nem as grandes verdades conseguem apagar uma pequena mentira.

Como o diabo é tinhoso e primo de Murphy, sempre pode piorar. É a sua insegurança de não saber se há marcas passadas em outros livros. Você não os folheia há anos, como saber? E aquela gaveta, a única gaveta fechada a chave do seu apartamento, por causa de documentos e cartões de crédito? Será que não esconde uma foto de vocês dois juntos, felizes? É o primeiro pensamento a vir à mente da mulher a sua frente. O primeiro de uma centena.

É comum se ver num caminho sem saída: esquecer esse dia e viver em eterna insegurança ou vasculhar a casa para ter certeza que aquela foto – e "aquela sirigaita" – não é mais importante para você. Em ambos os caminhos, nada volta a ser como antes.

E quando ela bate a porta da sua casa e vai embora, com raiva e com razão, você não sabe do que tem mais medo: de que ela não volte ou de que você não volte. Não volte a ter noites tranquilas de sono e não pensar se ela, o fantasma da foto, está mesmo tão feliz quanto disse que estava. Porque você tem certeza que não está, mas sempre preferiu acreditar no contrário.

Cães e gatos – Quando uma mulher cita um indivíduo e o chama de cachorro, canalha, safado, é melhor você cancelar a cerveja e pedir uma garrafa de pinga. E se você conhece o cão da história, é melhor aproveitar a viagem do garçom e misturar a pinga com uísque. Falsificado, de preferência.

Calado, você engole. A pinga e o discurso de que ele não vale nada. Foi um deslize. Ou melhor, um momento de carência afetiva. Se ele ainda for importante na vida dela, então o discurso será de ter sido um momento de burrice. Céus, como fui tão burra? Se for um pouco experiente, ela ficará calada e não irá completar a frase dizendo que "ainda bem que você apareceu na minha vida".  Tem gente que diz isso. Sinceramente, teria sido melhor deitar na mesa, levantar a saia e chamar o cão-cidadão.

Volte para casa o mais bêbado possível, pois talvez no dia seguinte você não lembre de nada. Jogue fora qualquer doce ou chocolate da geladeira, para não correr o risco de ingerir glicose e, assim, evitar uma amnésia alcoólica induzida.  Se for religioso, peça proteção ao bom deus, bata sua cabeça com força contra a parede e reze para ter uma isquemia temporária e acordar sem saber o que houve, desmiolado.

As mulheres têm uma facilidade imensa de deixar as coisas para trás. Obviamente não de fato, mas pelo menos de aparência. É uma das qualidades que a maioria dos homens inveja, porque a gente não consegue. A partir daquele porre de pinga com uísque, nada também será igual.

Afinal, você é homem como qualquer outro, sabe bem o que passa pela cabeça de uma mulher quando o jargão "ele não vale nada" sai por aquelas bocas. É tão verdade que não valemos nada, na maioria das vezes, como é verdade que eventualmente valemos tudo para alguém. O sonho de ir embora, de que se peça o divórcio, de voltar no tempo e aproveitar tudo de novo.

As pessoas sensorialmente avançadas e quimicamente otimistas sabem que a vida é assim, dá muitas voltas, as relações vão e voltam, nem sempre permanecem, deslizes são constantes, as carências também, o importante é tentar, nunca desistir e procurar dar o melhor de si no presente, não no passado.

As pessoas normais sabem que é só lorota e falam a mesma coisa apenas para os outros, nunca para si. Em ambos os casos, a vida segue, mas os normais terminam formando família com quem se adequa a certos parâmetros, nunca quem nos tira o sono e nos faz contar os minutos no relógio para dar um abraço.

Fantasmas são tão comuns quanto as carências afetivas das pessoas. A única diferença é que fantasmas têm sete vidas. Às vezes, basta uma garrafada para sumir. Outras vezes, a única saída é declarar moratória e pedir um financiamento ao diabo. (rebelo.org)


Categoria: Relacionamentos
Escrito por Paulo Rebêlo às 01h31 [ ]
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Eremita Insone S.A.

Paulo Rebêlo ( email )

Quando você aprende a conviver em harmonia com a insônia, ela pode até se tornar uma aliada. Enquanto os outros dormem, abre-se um universo paralelo que inclui pessoas, lugares, cheiros, comidas e até animais que, a priori, não existem para a sociedade do horário comercial.

Depois de anos por amaldiçoar frustrações passadas pela insônia, com o tempo de aprendizado noturno as pessoas começam a reclamar é quando o sono chega antes de o sol nascer. Pois é justamente nesse horário, no qual até os meliantes adormecem, que você consegue apreciar o azul de uma bebida, o sabor de uma conversa e a compaixão de um vira-lata.

Com o tempo, você identifica aqueles lugares cujas portas não fecham antes do primeiro raio de sol. Ali, você vai encontrar sempre os mesmos garçons puxando uma soneca enquanto não aparece um cliente. Ao entrar, eles se recompõem, ajeitam a gravata na gola e se aproximam rapidamente. Não para trazer o cardápio, não para perguntar qual é a bebida. Porque tudo isso eles já sabem decorado.

Aproximam-se para reclamar. Afinal, já faz tempo desde sua última visita. Eventualmente, pedem para você olhar um caderno com exercícios do supletivo que o filho está cursando, mas que ele não sabe resolver os problemas. E às vezes eles não falam nada, apenas trazem sua dose e seu bife, em silêncio, pois sabem que quando você chega com o bloco de anotações à mão é porque quer apenas escrever em cima da mesa, sem ninguém por perto e sem importunos.

Dissabores noturnos –
O silêncio é o bem mais caro da madrugada.

Pois, é com o silêncio nas ruas que você ensurdece perdido em idéias e questionamentos nem sempre cartesianos. E é com o mesmo silêncio que você consegue escutar de forma tão voraz o som dos primeiros roncos de motores de ônibus, uma espécie de aviso prévio da manhã comercial que se aproxima.

E enquanto se volta para casa, você se torna um privilegiado ao poder experimentar o sabor de uma fruta fresquinha, às 5h da manhã, quando o vendedor ainda nem armou o carrinho para começar a vender logo mais. É um prêmio pelo seu companheirismo de estar ali, como quem diz: ‘você não está sozinho nesse mato-sem-cachorro’.

E por falar em cães, eles talvez não sejam tão amigos quanto o cachorro-engarrafado do Vinícius, mas certamente conseguem sentir o cheiro do sono quando chega. São os primeiros a aparecer, lentamente, desgovernados pela rua, quase como lhe protegendo de seres sobrenaturais cujas narinas caninas conseguem sentir de longe, enquanto se caminha pela rua deserta. Se você voltar ao mesmo local durante o dia e procurar aquele vira-lata, ele não vai estar. Talvez, assim como nós, ele seja insone e apareça apenas durante a madrugada, sem hora marcada, mas nunca na hora errada.

Durante a semana, você aproveita para aprender com as histórias de vida de gente que sabe muito mais de vida do que você. Os porteiros largam e vão tomar um leite pingado com uma fatia de pão e margarina. Os garçons sabem de tudo o que acontece na cidade, você não precisa mais nem comprar jornal. Os motoristas de bacurau dão as melhores dicas de bares discretos para você levar a amante. Dicas muito bem aproveitadas pelos seus amigos casados, aliás, são quem precisa.

No final de semana, contudo, é a sua hora de repassar conhecimento adiante. É quando aqueles guris saem das boates e baladas, fazendo barulho e cantando alto, como se fossem os donos da rua e tivessem o direito de acordar os felizes homens e mulheres que adormecem, juntos um ao outro.

E você, que nem fuma essas coisas caretas, precisa tirar um Malboro do bolso da camisa xadrez, acender, baforar vagarosamente enquanto caminha de encontro a eles, fitando-os. E os mais perspicazes baixam o tom de voz, ou mesmo se calam, como se estivessem finalmente aprendendo que na vida real o silêncio sempre fala mais alto. Desde que você aprenda a ouvir.

Cheiros de madrugada –
Você chega à praia e não consegue entender como a maresia e o cheiro de areia molhada são tão diferentes de madrugada. É apenas neste horário que você pode se deitar na areia de roupa e deixar a onda bater, sem parecer doido. E consegue ouvir quase todas as frequências sonoras de cada onda que se quebra.

Ao ir embora e ao ver os vendedores dormindo naquelas grutas no subsolo das barracas de coco, entende que seu ideal de desapego material ainda está longe de se concretizar, mas que agora não é mais hora para se pensar nisso, mas de voltar para casa – pois ao dobrar a esquina, já é possível ver o primeiro clarão de sol, não mais alaranjado e denso como outrora, mas agora esparso e amarelo claro. É o aviso final que o dia já chegou.

A última tangerina já se foi, ficou com o jornaleiro, um dos caras que você mais admira na madrugada. Submerso naquele cheiro ruim de papel-jornal, ele vende, mas não acredita naquelas fabricações irreais que você mesmo ajuda a fabricar. Mas, acredita em você que sempre promete pagar o jornal na hora do almoço, logo mais quando passar em direção ao trabalho.

Pálpebras pesadas, você chega em casa procurando as mesmas respostas que sua insônia sempre lhe negou. Uma batalha que se dá por vencida, há muito, restando somente o refúgio de uma rede velha armada no meio da sala, entre camisas, papéis espalhados e lembranças.

O cansaço e o peso do horário decerto não lhe deixam sonhar, mas logo mais à noite ela volta a fazer-lhe a mesma pergunta enquanto você tenta esquecê-la. Porque é a mão dela lhe puxando para a rua como quem partiu e não devia. Ou talvez seja apenas a mão pesada da insônia. Não faz diferença, porque ninguém nunca disse que era hora de partir. E mesmo assim; assim ela se foi.


Categoria: Super Ranzinza
Escrito por Paulo Rebêlo às 02h56 [ ]
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Vestidos e Unhas

Paulo Rebêlo

Pessoas têm fetiches. Certos fetiches são estranhos, mas pessoas também são estranhas. Há fetiches clássicos, como transar no elevador, no motel de beira de estrada, dentro do carro, em pé na rede da sala, no alto da roda-gigante, no banheiro do avião, em cima de um vagão de trem ou dentro de uma piscina de cerveja.

Engana-se quem pensa que fetiches são apenas carnais. Também podem ser detalhes alheios ao físico, como profissões e padrões de comportamento. Há mulheres com tara em costas masculinas, em bigodes, em gordinhos e, reza a lenda, até mesmo em carecas. As mulheres dizem que mulher tem tara mesmo é em cafajeste, mas isso elas só revelam entre amigas. O problema é que mulher tem fetiche demais. Se a gente deixar – ou incentivar – vai ser um fetiche diferente por dia.

É difícil fazer elas entenderem que conosco é bem mais simples toda essa história de fetiches: basta tirar a roupa. E quanto mais unidades femininas nesta condição, melhor. E se for ao mesmo tempo, é quase o nirvana. Evidentemente que nossa futilidade masculina não acaba por aí, mas, tudo bem, ocasionalmente podemos admitir certos diferenciais que fazem grandes diferenças, partindo da premissa de que ambos ainda estejam de roupa.
 
Há mulheres teimosas, cientes de que não devem perguntar esse tipo de coisa, mas perguntam do mesmo jeito. De bom humor, num belo dia de chuva do seu passado, você acende um charuto, pega aquele resto de licor Três Marias no freezer e começa a pensar.

Coça aqui, minha frô –
A maioria das mulheres nos acusam de machistas quando dizemos que preferimos cabelos longos. Fazer o quê? Oras, se até a branquinha mais fofa do cinema francês contemporâneo, a Juliette Binoche, que fez sucesso entre o público masculino com aquele cabelo sempre curto, hoje se exibe com lindos e longos cabelos, por que vocês também não podem? Essa praga moderna chamada de 'cabelo curto' se instalou na mente das nossas mulheres atuais, como tantas outras pragas modernas já xingadas em "queremos nossas mulheres de volta" -- (leia aqui)

Cabelos vermelhos, por exemplo, são tão interessantes quanto. Não vermelho sangue, mas aquele vermelho fogo, um vermelho tipo a Xena da televisão. Saias pretas, de pano ou tecido fino, também concorrem em pé de igualdade. Superficialidades, contudo... Nenhuma dessas escolhas chega aos pés das mulheres de vestidos. Elas são 'a bala que matou Kennedy', mas parece que não entendem. Ou não querem entender. Ou então gostam de implicar.

Aquele vestido quase-chique da balada tem o seu valor, tudo bem, mas nada se compara aos vestidinhos surrados, de casa, despojados, longos ou curtos. É fácil de colocar e de tirar. Tirar e colocar. Colocar e tirar. Sem trocadilhos. Ou não.

Vestidos simples deixam as mulheres mais simples. E mulheres simples costumam ser as mais interessantes, sobretudo neste mundo de hoje cujas mulheres parecem cada vez mais complexas e complexadas com tudo e com todos. Até com elas mesmo. Se é verdade o ditado que menos é mais, então uma mulher de vestido é muito mais.

Tem também aqueles vestidos longos com botões, aparentes ou escondidos por baixo do pano. E você desabotoa um por um, pacientemente, num ritual quase tão sagrado e compenetrado quanto o ritual de se preparar para assistir ao futebol dos domingos. Não é pouca coisa, acredite. Mas, quando isso acontece, às vezes são elas que não têm paciência de esperar todo o seu ritual de admiração; e puxam logo o vestido por cima. Bom, o que há de se fazer. Paciência, às cucuias com os botões.

Findo o processo de admiração e subsequente efetivação, talvez a criatura pergunte sobre a sua vida, quiçá os seus fetiches e gostos. Em horas assim, não há nada mais sacrossanto do que unhas em tamanho suficiente para que coçem suas costas ou a sua saliente pança peluda. Assim, como quem coça a um buldogue cansado de guerra. Aquele barulho de roc-roc-roc e aquelas unhas femininas e afiadas. Mulheres sem unhas desperdiçam todo um encanto no pós-desabotoamento o qual nem elas entendem.

E quando você termina de explicar todas essas futilidades para a criatura, achando que ela vai adorar por você estar compartilhando um pouco de seus gostos, ela simplesmente se mantém imóvel, respira fundo, analisa você dos pés à cabeça e dispara:

'cara, você vem reclamar dos nossos cabelos curtos, mas é praticamente careca, vive roendo suas unhas, provavelmente era fã daquele seriado com a sapatão da Xena, e sei que você adora almoçar naquele lugar cheio de riponga maconheira que usa aqueles vestidos indianos horrorosos. É óbvio que você tem fetiche em cabelos, unhas e vestidos, deve ser trauma de infância. Dá licença que vou embora, tu tens problemas.'

E pela porta ela se vai, puxando a calça jeans e sem precisar pentear o cabelo curto. Ah, tudo era tão mais simples quando nosso único fetiche era uma mulher pelada. Frô, volte aqui, o pulso ainda pulsa e as costas ainda coçam.


Categoria: Comportamento
Escrito por Paulo Rebêlo às 02h44 [ ]
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Mulher para casar é ambulância

Paulo Rebêlo

Aquela ali é para casar. Eis uma expressão enigmática para a maioria das pessoas. O que faz um homem apontar o dedo e achar que aquela mulher é para casar?

Já me responderam de diversas maneiras, sempre honestamente, em vias alternadas e não necessariamente excludentes: tem que ser rica. Tem que ser bonita. Tem que ser magra. Tem que ser inteligente. Tem que saber conversar. Há de ter senso de humor. Deve ser maleável. Paciente. Carinhosa.

É comum – para homens e mulheres – estabelecer critérios. As variações são inúmeras. E é claro que, às vezes, somos tudo isso e mais um pouco, mas nem assim dá certo.

Certa feita, porém, tive que dar o braço a torcer a um critério inusitado. Para aquele colega, mulher para casar tinha que ser aquela que, quando você chega em casa do trabalho tarde da noite, cansado, basta sentar à mesa e dizer: ‘mulher, bota meu cumê’. Nada mais.

Ela pode ser louca, ciumenta, surtada, balofa, cavernosa, não importa. Se você chegar dizendo "mulher, bota meu cumê" e ela vem com um prato de comida quentinha, todo o resto está perdoado e nada mais importa.

O pior é este citado cidadão ser magro, não é comilão. O fetiche é a condição de ser servido ao chegar do trabalho, sem precisar ir para a cozinha esquentar ou preparar algo comestível. E então ele fica lá, comendo a gororoba requentada de frente à TV. Depois vai dormir feliz da vida.
 
Tentativa e erro –
Meus critérios sempre foram tão simples que dá até vergonha. O primeiro e primordial é a que tal mulher não pode ser para casar, seja lá o que isso signifique. E o segundo, óbvio, é que não pode ser abstêmia. Afinal, com religião não se brinca.

Apesar de ser comilão e admirar bastante as mulheres que cozinham bem, a idealização de "mulher, bota meu cumê" não me convence. Desafiado, tive que explicar que já tive, um dia e num passado distante, meus próprios critérios.

Para começar, eu teria que chegar em casa bêbado de madrugada, talvez tropeçando em objetos pelo caminho, deitaria na cama ainda de roupa e sapatos, sem tomar banho; a mulher iria carinhosamente me abraçar e ficar coçando minhas costas até eu dormir – o que levaria em torno de quinze a vinte segundos – mas não poderia surtar com o acentuado bafo de cana ou o cheiro de charuto na camisa.

Ela simplesmente aceitaria a condição etílica-terminal do companheiro, e até ficaria feliz, porque ele estava ali aproveitando o carinho e dormindo abraçadinho com ela. Eventualmente peidando, é verdade, porque calabresa com fritas ao molho de óleo faz dessas coisas, mas continuaria dormindo abraçadinho do jeito que elas tanto gostam.

Bom, na primeira vez que fui fazer isso de verdade, a criatura fechou à chave a porta do quarto até eu voltar do banho. Resignado, terminei adormecendo na privada e caindo pelado no chão gelado do banheiro.

Na segunda vez, fui parar na sala. Da minha própria sala, devo realçar. Acontece que o sofá tinha tanto bagulho em cima que terminei dormindo no chão e acordando debaixo da mesa, sem entender direito o que havia acontecido. Foi por causa do sol, descobri depois.

Na terceira vez, não tinha mais ninguém na cama.

SAMU RELACIONAL –
Se é para idealizar a mulher para casar, boa parte dos homens – eu incluso – sonharia mesmo com a mulher-ambulância.

Às vezes, quando se está no bar às altas horas da madrugada, você daria todo o seu reino por alguém que chegue ali, pague a conta, lhe levante do chão, eventualmente dê um chute no vira-lata que está zelando pelo seu sono, lhe coloque no carro e leve para casa. Uma espécie de ambulância particular. E que esteja cheirosa, porque ninguém é de ferro.

Não há nada pior do que chegar a esta condição deprimente – e reincidente – tendo que fazer tudo sozinho, seja caminhando, de táxi, de bacurau ou esperando amanhecer para pegar o ônibus de linha.

O resultado nunca é previsível. O motorista do táxi vai se aproveitar e cobrar mais, porque você não consegue enxergar direito o taxímetro. Você vai pegar o ônibus errado, se perder e cair dentro de uma favela. Você vai adormecer no assento e só acordar no terminal, do outro lado da cidade. Você vai esquecer que se mudou e, todo prosa, pega a linha para sua casa antiga, que talvez nem exista mais. Ao chegar lá, lembra que está no lugar errado e não tem mais dinheiro para a passagem de volta.

São situações ridículas, porém reais, mas que poderiam ser evitadas se a sua companheira não se importasse em virar ambulância de vez em quando e com o passar dos anos. Não com frequência, claro, porque a gente não quer abusar. Tipo, três vezes por semana, nada do outro mundo.

Você telefona e ela pode até surtar, reclamar, lhe xingar, dizer que vai se separar, que vai botar um par de chifres com o porteiro, lhe chamar de bêbado e maconheiro... tudo bem, você aguenta calado, até concorda, mas ao final ela vai pegar o carro, pagar a conta no bar, lhe arrastar pelos braços até o banco de trás e ocasionalmene esfregar um pedaço de chocolate na sua boca se você estiver se debatendo com hipoglicemia.

Com a mulher ambulância, você nem se importaria de adormecer na privada, de dormir debaixo da mesa da sala. Quem sabe, nem se importaria até de tomar banho antes de dormir. Pelo menos, estaria no conforto do lar, saberia que de manhã cedo sua companheira estaria ali, para uma eventualidade qualquer de precisar ir ao hospital injetar glicose ou se afogar na própria baba enquanto dorme.

A mulher-ambulância poderia, quiçá, pedir uma compensação. Você poderia ir fazer aquelas compras de cinco horas e meia (seguidas) pelo shopping. Esperar ela terminar de fazer o cabelo no salão, pacientemente. Você poderia levar os filhos (dela) para o playcenter enquanto ela convida as amigas para um chá da tarde e passam o dia falando mal das amigas que não foram.

Enfim, a mulher-ambulância faria o mundo masculino muito mais feliz e revolucionaria todo o conceito de "mulher para casar".


Categoria: Relacionamentos
Escrito por Paulo Rebêlo às 02h54 [ ]
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Viagra da folha em branco
Paulo Rebêlo

Não há nada mais ridículo do que a chamada síndrome da folha em branco. Pura enrolação, serve para preencher o tabelado espaço no jornal quando grandes escritores e consagrados cronistas ficam sem assunto – um eufemismo para preguiça ou ressaca do uísque falsificado de ontem. Então, escrevem sobre a falta de assunto até preencher os centímetros restantes.

Em inúmeras oportunidades, fala-se sobre a síndrome. É quando você olha para aquele papel dentro da máquina de datilografar, hoje a tela branca de fundo no Word,  mas não consegue pensar sequer numa idéia para escrever aos leitores que, numa equação de seis graus de separação, são aqueles que pagam para você ruminar sobre a presente falta de assunto e corrente fase de medo da folha em branco.

Outros usam o argumento da 'falta de inspiração'. Como se fosse preciso inspiração para pagar o aluguel, as contas de água, luz e telefone, para comprar o café-com-pão-manteiga-não. Balela. Quem precisa de inspiração é tuberculoso e aspirador de pó.

Se um jornalista chega para o chefe e diz que não pode escrever a reportagem por não estar inspirado, aquela sem dúvida será a última respiração dele. Se eu chego para minha gerente do banco e digo que não posso quitar a fatura do cartão porque estou sem inspiração para escrever, ela vai me dizer que o banco também não tem inspiração para filantropia.

Mas, quando um grande escritor ou um cronista consagrado não manda a coluna para o jornal sob alegações de estar sem inspiração, não tem problema. Talvez, até telefonem para ele e perguntem se precisa de algo, tipo uma garrafa nova de uísque importado, um charuto cubano, uma mulher com todos os dentes e sem bite-bite, enfim, um agrado qualquer.

Na semana seguinte, a criatura inspirada (e expirada) vai comentar sobre os e-mails e cartas de leitores preocupados com o sumiço. E na semana posterior, o arataca vai falar sobre as agruras de um cronista quando fica sem assunto. Na terceira semana, vai culpar a síndrome da folha em branco que já acometeu – supostamente – os maiores escritores da história. Não segundo eles, obviamente, mas segundo os preguiçosos que não sabem mais o quê escrever.

E quanto a você, que precisa escrever não apenas por necessidade financeira, mas também por necessidade psicológica, resta apenas usar estratégias belicistas de incentivo. Uma espécie de viagra da pseudo-literatura.

Há diferentes meios. A mais óbvia é pegar todas aquelas contas atrasadas e pendurar com fita isolante nas bordas do monitor. Assim, você não consegue se concentrar em mais nada e começa a escrever frases, quase no modo automático, ciente de que síndrome da folha em branco é pura frescura, invenção de gente preguiçosa.

Tão eficiente quanto, outra estratégia é pedir para a baranga da sua namorada, ou esposa, colocar uma roupa sexy e lhe esperar no quarto com a luz acesa. Depois de dez minutos, ao entrar no recinto e bater de frente com aquela visão do inferno, você vai relembrar de morbidez ainda pior: a síndrome da falta de sexo matrimonial. E a tal da folha em branco vai parecer brincadeira de criança de tão simples. Irá voltar ao escritório e, se brincar, escrever até um livro inteiro até amanhecer o dia.

Há inúmeras outras táticas, mas o espaço acabou. E diferentemente dos grandes escritores e consagrados cronistas, você não vai dar o mapa da mina, assim, de mão beijada. Agora, a única coisa a fazer é passar mais uma hora revisando o texto, trocando palavras e gerúndios, enquanto reza para que a baranga no quarto ao lado tenha enfim adormecido.

Logo você, pedindo favor aos céus. Tudo porque as contas estão atrasadas e você não teve dinheiro para comprar sequer um colchonete e colocar no escritório. Em momentos assim, de repente poderia escrever sobre a sensação de dormir no ambiente de trabalho, em meio a jornais velhos, revistas rasgadas, CDs, fios, farelos de biscoito e eventualmente umas baratas mortas.

Maldita síndrome.


Categoria: Super Ranzinza
Escrito por Paulo Rebêlo às 01h20 [ ]
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Estrangeiro, brasileiro - parte 2

Paulo Rebêlo

Na crônica anterior, vimos como é difícil ser brasileiro no exterior quando não temos o estereótipo padrão tupiniquim: morenos, atléticos, conquistadores e barulhentos. O problema de ser um brasileiro nem um pouco brasileiro – baixinho, branquelo, redondo, quieto e careca – é que ninguém acredita que você é brasileiro. Nem quando mostra a carteira de identidade ou o passporte.

Em Portugal, tá certo que o idioma é teoricamente o mesmo, mas a entonação e o sotaque são completamente diferentes. Não há nada demais se um turista me confunde com português e vem me pedir indicações, mas quando um português-nativo lhe confunde achando que você é português, mesmo quando você fala com nítido sotaque brasileiro, é porque tem alguma coisa realmente errada com um dos lados.

Certa vez, uma senhora perdida na estação de metrô não sabia usar a máquina de comprar tickets. Eu também não sabia, era minha primeira vez usando aquelas máquinas. Do alto da minha matutice e subdesenvolvimento, fiquei tão perdido quanto cego em tiroterio e não sabia ajudar a pobre coitada. A senhora achou que foi má vontade da minha parte e saiu xingando. E ainda fiquei sem conseguir comprar o ticket.

Em outra oportunidade, um carro com uma família portuguesa pára ao meu lado na rua, perguntando por direções. Aparentemente, estavam tão perdidos quanto eu e, obviamente, não sabia de nada. E ainda insistiram, perguntando pelo nome de outra rua. Como se eu soubesse o nome de qualquer rua, aliás. Foram embora com raiva achando que eu não queria dizer por má-vontade, por mais brasileiro que fosse meu sotaque.

Por causa do trabalho, certa vez tive que descascar um abacaxi numa terra onde só tem gente de olho puxado. Como quase não tinha vôos para lá, a conexão foi na Terra do Tio Sam, quintal do Bush Jr, onde me vi preso por três dias em uma pequena cidade onde a [minha] diversão era ir ler jornal na internet da biblioteca pública, de graça. Era meu único contato com o mundo exterior, na ocasião.

No segundo dia, enquanto lia meus jornais online, uma típica loira-americana entre 40 e 50 anos que estava na cadeira ao lado olha para mim, dá uma batidinha de leve no ombro e pergunta: me desculpe, mas você poderia soletrar “architecture” para mim?

O caipira aqui estava tão entretido no jornal que, na hora, nem processei direito aquela situação bizarra, apenas soletrei a palavra com aquele meu inglês-de-escolinha e voltei minha atenção para os jornais e as fotos de gente morta na primeira  página. Levei alguns minutos para questionar o que diabo havia acontecido.

Aparentemente, aquela manceba digitava uma carta ou algum documento importante, porque parecia bem concentrada. Quinze minutos depois, a criatura dá outra batidinha no ombro e pergunta: senhor, desculpa de novo, mas você poderia soletrar “whacked” para mim? É que estou escrevendo um…

Na mesma hora a interrompi e, frustrado, simplesmente fui obrigado a responder: minha senhora, me desculpe, mas eu não sou daqui, sou gringo e caipira, acho que não falo inglês muito bem e evidentemente não sei soletrar palavras em inglês, aliás, estou até de saída porque meu tempo acabou e, como todo bom estrangeiro latino-americano, money que é bom nós num have.


Escrito por Paulo Rebêlo às 15h44 [ ]
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Estrangeiro, brasileiro - parte 1
Paulo Rebêlo

Ser brasileiro em terra estrangeira significa que você pode ser qualquer um e ninguém ao mesmo tempo. Não é à toa que passaporte brasileiro vale tanto no mercado negro, mas ninguém parece lembrar desse detalhe na vida real. O estereótipo é universal: somos morenos, atléticos, conquistadores e barulhentos. O problema de ser um brasileiro nem um pouco brasileiro – baixinho, branquelo, redondo, quieto e nada galanteador – é que ninguém acredita que você é brasileiro. Nem que mostre o passaporte. E todo mundo vai achar que você é mesmo um mentiroso.

É comum a gente ser confundido com americano, português, holandês, húngaro, francês e provavelmente com tantas outras nacionalidades que não lembro agora, mas ninguém arrisca dizer que sou brasileiro mesmo quando visto uma camisa com a bandeira do Brasil no peito. É normal, compreensível, mas tudo na vida precisa ter um limite. E o meu limite de frustração-pátria encerrou-se quando me perguntaram se eu era mongolês. Ou seria mongol? Mongol devo ter sido sempre, mas refiro-me aos residentes da Mongólia.

No início, pensei que não estava entendendo o idioma, ou até que fosse piada, mas aquela simpática jovem senhora chinesa realmente estava crente que eu seria um quase conterrâneo. Eu acabara minha refeição naquele restaurante na periferia do qual fui vizinho por meses e, não mais que de repente, a criatura fala comigo em chinês e espera uma resposta.

Claro que não entendo, repito apenas “English?” com meu sotaque 'orgulho de ser nordestino' e ela tenta falar uma mistura de húngaro, inglês, chinês e talvez outro idioma qualquer. Apenas o suficiente para eu entender que ela perguntava se eu era mongolês. Eu disse que não, falei que era do Brasil (ela não entendeu o nome do país) e achei que o assunto tinha acabado por ali mesmo.

Paguei a conta, frustrado, já pensando em chegar em casa e comprar pela internet várias bandeiras brasileiras para andar com elas amarradas nas costas que nem a capa do Super-Homem. Quando pedi a conta, a simpática-jovem-senhora-chinesa não trouxe apenas a conta, trouxe também um mapa-mundi e abriu em cima de mesa, ficou apontando para a Mongólia e apontando para mim, sorrindo como se estivesse encontrado o irmão perdido há décadas para o exército de Mao.

Dei uma risada discreta para não parecer rude, falei Brasil novamente e apontei no mapa, ela se mostrou confusa e apontou para a China, para a Mongólia e, em seguida, para ela. Depois, apontou novamente para a Mongólia e indicou o dedo para mim. Não ia adiantar mostrar carteira de imprensa com o nome BRASIL em letras graúdas, então apenas ri à toa e fui embora, cabisbaixo.

Tudo bem, tenho cá meus olhos ligeiramente puxados por causa da genética paraense, ou seja, um bocado de raiz indígena; fato que ninguém também acredita, porque índio branquelo, careca e peludo é quase tão fácil de achar quanto um jacaré albino. Tudo bem, estava sem fazer a barba há quase duas semanas, cansado e de ressaca, de repente eu poderia parecer um asiático-albino, quem sabe. De qualquer forma, Mongólia é difícil de engolir.

Apesar de ser viciado em cinema oriental há anos e até escrever sobre o assunto, só assisti a um filme da Mongólia até hoje. Foi o ótimo “Camelos também choram”, uma produção conjunta da Mongólia e da Alemanha filmada em 2003. Ao lembrar daquele filme, notei que os atores-mongoloses também são baixinhos, redondinhos e, claro, têm olhos meio puxados. Só que não são branquelos.

E minha grande pergunta é: serão os mongoleses também peludos?


Categoria: Super Ranzinza
Escrito por Paulo Rebêlo às 09h48 [ ]
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Uma mesa de pôquer
Paulo Rebêlo

Por um motivo alheio à razão de quem joga, pôquer é um jogo que encanta os homens rapidamente e, na mesma proporção, não exerce a mesma influência nas mulheres. Tem gente que tenta procurar a relação do pôquer com futebol ou automóvel, até agora sem sucesso, para explicar o fenômeno. O irônico é que, das poucas mulheres que conheço adeptas de pôquer, todas jogam bem.

É uma pena que pôquer não tenha sequer metade do romantismo do cinema. Enquanto a gente joga, não há belas mulheres com as pernas de fora que ficam encostadas em nosso ombro. Não existe aquele cidadão que leva a filha/neta/sobrinha de microssaia e decote até o umbigo para atrapalhar a atenção dos outros jogadores e, assim, levar toda a bolada de dinheiro. Em uma mesa de pôquer, ninguém nunca tira o Royal Street Flush (o melhor jogo) na última rodada, como sempre acontece no cinema.

O jogo nunca é interrompido com alguém que arromba a porta e entra atirando. A gente não joga de paletó e gravata, no máximo uma camisa social quando vem do trabalho. O dinheiro que você perde sempre é quase a mesma quantia que você vai ganhar no próximo jogo. Depois de seis meses, você vai na sua planilha do Excel e percebe que perdeu tanto quanto ganhou, mas que aprendeu um bom bocado nas histórias que se conta na mesa. Pois, sim, também diferente do cinema, uma mesa de pôquer não é silenciosa. Geralmente é quando a gente encontra aquele pessoal que não tem tempo para jogar conversa fora no bar e, durante o jogo, todo mundo coloca o assunto em dia. É barulhenta. E desorganizada.

Não existe ninguém que anuncia as jogadas, nem ninguém com a única função de recolher e distribuir as fichas como acontece nos cassinos e, claro, no cinema. Quem joga é quem precisa contar as próprias fichas, prestar atenção se a conta de todo mundo está certa e, no final do jogo, organizar por cores, guardar na caixa e voltar para casa com aquele trambolho cheio de fichas coloridas nas costas.

E o mais difícil do pôquer – além de encontrar pessoas em número suficiente para jogar – é achar um lugar minimamente adequado para jogar. Ou seja, uma mesa de tamanho médio onde ninguém fique olhando para as cartas do outro e, preferencialmente, uma geladeira com congelador para fazer gelo. As mesas redondas são as melhores, pois ninguém fica exatamente lado a lado. E gelo de água de côco é sempre bem-vindo, para acompanhar com o uísque barato que o mais pão-duro da mesa sempre acha "ótimo".

Encontrar um lugar – geralmente, na casa de um dos participantes – é uma equação complicada. Porque como a maioria do povo é casado, há sempre o risco de a esposa/marido ficar em casa durante a jogatina. Quando isso acontece, ou a criatura vira papagaio de pirata (enxeridamente irritante) ou vai querer regular a hora de terminar o jogo, o barulho na casa por causa dos vizinhos, a bebida em excesso, o horário porque amanhã é dia de trabalho e já passou da meia-noite e assim por diante...

No caso dos solteiros, o problema é o inverso: a dificuldade é convencer as esposas/maridos a liberar o pobre cidadão de ir passar quatro horas temporariamente desligado ou fora da área de cobertura... jogando pôquer com outros quatro marmanjos barrigudos na casa de um cara solteiro. Elas sempre desconfiam, juram que será igualzinho ao cinema, com belas e magras mulheres sentadas no colo dos barrigudinhos e perguntando se a carta é de espadas ou de... paus.

LÁ e LÔ –
O fascínio do pôquer não reside na quantia que você ganha ou perde, quiçá na sorte durante a distribuição das cartas, mas, sim, no que você pode aprender sobre si mesmo. Para quem gosta de ler pessoas e observar comportamentos, é um prato cheio. De fichas.

Os cobras dizem que a diferença entre um bom jogador de pôquer e um jogador medíocre é a habilidade de blefar. E a diferença entre um bom jogador e um jogador melhor ainda é a habilidade de blefar apenas na hora certa. E o que leva um jogador realmente bom a um nível superior é a capacidade de ler as pessoas. Quando se aprende a ler o que as pessoas vão fazer em determinadas situações comuns, nada mais surpreende. No pôquer e na vida real.
 
E assim é a relação entre as pessoas. Blefes certos, blefes errados, mas sempre um resultado. Até o dia em que uma atitude ridiculamente surpreendente não surpreende. E a cada nova ficha na mesa, você se pergunta se teria apostado menos ou apostado mais se pudesse voltar ao início de uma rodada. Ou se teria investido mais ou investido menos se pudesse voltar no tempo em um determinado período da sua vida, nem que seja poucos anos atrás.

Depois de vários anos a tentar ler e antecipar o que as pessoas vão fazer, você pode finalmente parar de se surpreender. E quando as décadas de experiência enfim chegam, geralmente a gente não tem mais tempo de corrigir nada. Ou de mudar coisa alguma. Sobre isso, apenas na próxima crônica. [ email ]


Categoria: Comportamento
Escrito por Paulo Rebêlo às 19h21 [ ]
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Queremos nossas mulheres de volta
Paulo Rebêlo

As mulheres deveriam dar um tapa,  uma unhada e um puxão de cabelo para cada parabéns recebido pelo dia internacional da mulher. Só não precisam jogar fora os presentes, mas deveriam abrir o pacote já reclamando – o que não seria de tão surpreendente, aliás. Deveriam comemorar o dia internacional do rim, que também cai neste 8 de março. O que seria das pessoas sem os rins? Imagine quantos pobres coitados não sofrem todos os anos com doenças renais.
 
O dia internacional do bicho bom só serve para duas coisas: aumentar a quantidade de presentes inúteis que a mulher ganha e nunca usa; e comprovar a teoria de que o mundo seria um lugar bem mais infeliz se as pessoas falassem sempre a verdade.

O presente é inútil porque homem não sabe comprar presente, muito menos para mulher. Isto é, quando a gente não esquece da data e compra um chaveiro de pelúcia com um coraçãozinho estampado, ali na loja de conveniência do posto enquanto abastece o carro ou espera o ônibus passar. E todos ficam felizes porque, durante o dia internacional do bicho bom, a gente pode falar para ela – sem peso na consciência – que de todas as mulheres do mundo a nossa é a mais bela. Sem peso na consciência porque ela sabe que não é verdade e que você só quer agradar, então todos se perdoam.

Aperte o cinto, a mulher sumiu –
Quem deveria comemorar o dia internacional do bicho bom somos nós, os homens. Deveríamos sair às ruas e reivindicar pela volta das nossas mulheres, ou melhor dizendo, pela volta das peculiaridades femininas que tanto nos encantam, mas que aos poucos as mulheres abandonam. Tem mulher deixando de ser mulher e, pior ainda, com orgulho. E não tem nada a ver com opção sexual.
 
Hoje em dia, a tal da ‘mulher moderna e globalizada’ está cada vez mais neurótica com a história de independência. E isso está abrindo uma verdadeira caixa da pandora, transformando nossas mulheres em réplicas da Kate Marrone, aquela que atira primeiro e nunca pergunta depois. Apenas grita, enquanto dá outro tiro na cabeça do defunto esparramado no chão.

No passado, fanáticos religiosos inventaram que mulher não podia usar calça comprida. Porque calça é coisa de homem e em mulher é pecado. Resultado: hoje a mulherada só quer usar calça comprida e queimou todos aqueles vestidinhos lindos e saias longas. Se a mulher não for uma jamanta, não existe nada mais sensual do que uma saia longa ou aquele vestidinho caseiro meio velhinho, bem diferente dos vestidos-pretos-tubinhos que a mulherada usa para ir à discoteca. Mas não, saias longas e vestidos caseiros não são mais coisas de mulher moderna e globalizada. A moda é calça comprida apertada-quase-rasgando para mostrar o cofrinho.

No passado, algum zé mané sem noção, provavelmente vendedor de calça jeans, inventou que as mulheres ficam modernas e globalizadas de jeans. Mentira, não existe nada mais brochante do que jeans, porque o jeans feminino parece ter apenas uma finalidade: mostrar uma realidade virtual. Ou ele deforma suas belas formas ou empina aquelas partes do corpo que você reconhecidamente não tem. Uma ilusão.

No passado, algum fanático machista (ou egoísta) falou que mulher não toma cerveja, porque é feio e sujo. Resultado, hoje temos uma legião de mulheres sóbrias e tediosas, que sentam no bar para pedir uma caipirosca durante a noita inteira, ficam sem assunto interessante para conversar porque não conseguem abrir os horizontes cerebrais que uma boa cerveja ou uma boa dose de uísque proporciona. E depois da segunda caipirosca, que nada mais é do que suco com três gotas de vodca da pior qualidade que dá ressaca, elas olham e pedem para você provar, porque supostamente a bebida está forte. É claro que está forte, hoje em dia elas não têm mais fígado, têm apenas patê de fígado.

No passado, algum pseudo-machão enrustido falou que as mulheres eram injustiçadas pela natureza, porque apenas elas sabiam as dores e dificuldades de ter filhos. Resultado, hoje cresce exponencialmente a quantidade de mulheres metropolitanas que não querem ter filhos, algumas até passam mal só de pensar na idéia de carregar um rebento no enorme bucho por nove meses. Quer dizer, daqui a uns 30 ou 40 anos, quando a gente estiver gagá e viúvo, não vamos ter ninfetas colegiais/universitárias para babar e nos chamarem de velhinhos tarados. Culpa das mulheres atuais.

No passado, alguma mulher gorda e feia, e que não conseguia pegar homem nenhum, inventou de dizer que cozinha não é lugar de mulher, que é lugar de empregada doméstica ou de escravo. O que ela queria, de verdade, era apenas que todas as outras mulheres do mundo ficassem na mesma situação, ou seja, sem macho. E deu certo. Hoje, a mulher moderna e globalizada se orgulha de dizer que não sabe cozinhar, que cozinha não é lugar para ela, como se isso fosse uma prova de modernidade, de indepêndencia.

Curiosamente, essas mulheres não percebem que os homens casados mais felizes são aqueles que comem bem. Em todos os sentidos, mas sempre há controvérsias. Unanimidade, apenas o prazer de comer um jantarzinho caseiro, sem fricotes, mas feito com boa vontade para dividir a ração. A mulher moderna não quer saber de cozinha, acha que o pensamento globalizado é sempre na lógica de que cozinha não combina com feminismo.

Agora é fácil de entender porque a maioria das mulheres modernas e globalizadas não gosta da letra do Mário Lago. Talvez seja o desconforto quando Ataulpho Alves ou Demônios da Garoa cantam: ‘a Amélia se foi, ai que saudades da Amélia, ela sim é que era mulher de verdade...’.


Categoria: Comportamento
Escrito por Paulo Rebêlo às 18h19 [ ]
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Aula de Ioga
Paulo Rebêlo

As pessoas têm uma dificuldade imensa em aceitar a própria natureza. Outro dia, uma colega ucraniana vem dizer que eu deveria experimentar uma aula de ioga. Supostamente, assim teria mais energia e não ficaria bocejando a tarde inteira. Fiquei pensando se não seria mais fácil e teria o mesmo efeito se eu, na hora do almoço, comesse algo um pouco mais leve no lugar do bife com feijão, macarrão, batata e maionese. Talvez eu pudesse dispensar a maionese.

A ucraniana insistiu. ‘Você vai gostar, depois da aula me sinto tão leve, cheia de energia, o mundo parece melhor, parece que estou flutuando’… – disse ela. Nessa hora, não sabia mais se ainda estávamos falando de ioga ou se ela me chamava para fumar um baseado importado da Ucrânia. Seria ioga a marca do fumo?

maconhão ucraniano


Pacientemente, expliquei à criatura que certas pessoas têm todos os motivos do mundo para não praticarem ioga.

Primeiro, ioga é saudável. É como suco natural da fruta, meu organismo não foi moldado para coisas saudáveis. Segundo, ioga custa caro. Cada aula custaria R$ 7,00 para apenas uma hora. Pela mesma duração e com o mesmo valor, podemos comprar duas cervejas e um pacotinho de torresmo. Terceiro, ioga é coisa de mulher, é tudo muito leve e zen. Quarto, não gosto de sociabilidades com muita gente por metro quadrado, com exceção do estádio de futebol [...] A criatura não sossegou e não entendeu que meus motivos eram mais do que suficientes. Não entendo esse povo gringo. Ela virou-se e disse: “são apenas dez pessoas na aula e nove são mulheres, todas são novas e bem bonitinhas…”

Foi então que conclui: às vezes, um homem precisa superar os preconceitos e zelar pela saúde.

UM TAPINHA NÃO DÓI –
Do topo do meu metro e meio de altura, quando olhei para aquela ucraniana de 1.75m, loira dos olhos azuis e com IGC (índice de gordura corporal) bem próximo de 0%, fiquei sem entender por quê nunca me preocupei antes com minha saúde.

Ao entrar na sala de ioga, olho para as outras nove mulheres que incrivelmente também têm IGC próximo de zero, olho para minha enorme pança peluda e só então entendo. A instrutora me garantiu que seria uma aula leve, já que eu era novato. Nunca imaginei que ioga tivesse diferenciação entre aulas leves e pesadas, afinal, é tudo tão zen. Vinte minutos depois, eu estava suando feito um porco condenado ao espeto e prometi que nunca na minha vida iria saber como é uma aula pesada de ioga.

que beleza...

Braços para frente, pernas para trás, tronco para cima, alonga e estica, vira, alonga, vira, estica, muda o braço, muda a perna, pronto, virei um nó e agora não consigo mais desatar. Olhei para o resto da sala, aquelas lindas donzelas com as roupinhas coladas e barriguinha para fora, mas a única coisa que consegui prestar atenção foi que todas estavam com o rosto limpinho e seco, enquanto apenas eu tinha que desatar o nó para enxugar o suor que escorria da testa e pingava no chão.

No próximo exercício, contei quase trinta abdominais que as ioguetes fizeram. Com minha pança peluda, consegui fazer três e, em seguida, perguntei baixinho à ucraniana se ela sabia o telefone do SAMU, porque faltava pouco para eu infartar de verdade. Nessa hora, só consegui me visualizar deitado em uma maca de hospital enquanto os médicos faziam uma ponte de safena. No dia seguinte, jornais do mundo inteiro teriam a manchete: 'brasileiro morre do coração durante aula de ioga rodeado por nove belas mulheres’.

A reportagem iria entrevistar as pessoas do meu convívio social. Minha ex-chefe no jornal certamente diria: “se ele ainda trabalhasse aqui, continuaria indo para o bar toda noite e essa tragédia nunca teria acontecido, isso é um alerta para todo esse povo aí que não bebe, agora dá licença que a cerveja está esquentando e vou brindar pelo presunto”. Os donos dos bares da cidade iriam à imprensa perguntar quem paga os fiados, pois defunto não paga conta. Os companheiros de copo responderiam que às vezes ele até era um cara legal, mas fiado é sagrado e cada um paga o seu.
 
IOGA MATRIX –
E foi perdido nesses pensamentos que a instrutora de ioga me chamou a atenção novamente, pois eles já estavam em outro exercício enquanto eu ainda tentava empurrar a barriga para o lado e encostar o joelho na testa há quase dez minutos. Logo, uma hora havia se passado, me vi deitado no chão pedindo ajuda da maldita ucraniana, pois agora eu não conseguia mais levantar e estava literalmente todo quebrado. Depois de uns minutos sem conseguir me mexer direito, as gurias me colocaram de pé e fomos embora.

nó humano


No caminho até a parada de ônibus, a ucraniana era só felicidade. Fiquei em dúvida se ela não tinha dado um tapinha com o fumo da Ucrânia. Achei melhor não perguntar, porque afinal eu estava me sentindo estranhamente bem. Minhas pernas estavam leves, a pança peluda parecia mais confortável, eu caminhava quase que deslizando e respirava muito melhor.

A ucraniana me deu um beijo demorado na testa, piscou o olho, pegou o busão e foi embora. E nem me dei conta da cena. Continuei ‘flutuando’ em direção ao cafofo, tudo parecia mais leve e singelo, a respiração límpida. Eu nem lembrava mais das nove mulheres da aula de ioga. E foi aí, naquele exato momento, que entendi o que estava realmente acontecendo. Não era o maconhão, eu estava sendo sugado para a Matrix da ioga. Toda aquela sensação de leveza e de um mundo melhor não poderia ser real.

Ainda flutuando, parei em frente ao bar vizinho de casa e entrei. Pedi um suco de laranja natural e uma caneca de cerveja preta. Lembrei-me do comprimido azul e do vermelho na Matrix. Olhei ao redor. Encostado na parede, um barbudo fumava um charuto e segurava um copo de uísque. Ao lado, um bêbado dormia com a cabeça e os braços debruçados na mesa, segurando a garrafa de cachaça quase vazia. As poucas mulheres no lugar, bom, elas tinham barriga e estrias, como quase todas as mulheres da vida real.

ioga matrix

Eram pessoas de verdade, sem ilusões de Matrix, apenas desilusões reais. Virei a caneca de cerveja de uma golada só, mais ou menos na hora que o garçom chegava com o pratinho de calabresa com fritas afogados no óleo de anteontem. Comprei um charuto e dei um tragada que encheu meu pulmão de substâncias cancerígenas e maledicentes. E enfim, sorri. Estava libertado, de volta ao mundo real.
 
Amaldiçoei aquela formosura ucraniana durante o resto da noite. A verdade se abriu. Afinal, só mesmo em um universo paralelo para uma loira de olhos azuis, linda e esbelta, dar mole para um papudinho entrevado. E cá para nós, nenhuma mulher de verdade tem índice de gordura corporal igual a zero, só mesmo na Matrix. Deixei a conta do bar no fiado de sempre e fui dormir feliz, abraçado com minha gastrite 100% da vida real.


Categoria: Super Ranzinza
Escrito por Paulo Rebêlo às 09h26 [ ]
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Pequenas burguesas, grandes afeições - parte 2/2
Paulo Rebêlo

As mulheres reclamam que os homens só pensam em sexo, afirmação com a qual não concordamos, porque também pensamos em cerveja e futebol na TV.

Depois de refletir sobre os últimos dez anos na crônica anterior, a gente chega à conclusão de que as pessoas precisam ter prioridades na vida. E por que dez anos? Porque em um certo ponto desta década, não lembro exatamente quando, decidi que eventualmente sexo teria que dividir espaço com a mesa de bar na tal lista de prioridades. Assim, ninguém pode dizer que só pensamos naquilo, até porque as pequenas burguesas dos bares não bebem, apenas fingem que bebem, o que diminui em 90% nossa atenção a elas.

O problema é que a maioria das mulheres não consegue conviver em harmonia com essa realidade de prioridades. Elas até dizem que conseguem no início, mas depois reclamam, reclamam, reclamam. No entanto, o mais curioso não é a reclamação em si, mas a correlação que já conseguiram fazer com assuntos completamente diferentes – sem o menor sexo, ops, quero dizer, nexo aparente.

Certa feita, uma pequena burguesa assumiu: “às vezes você me deixa no meio da madrugada sozinha na sua casa porque um amigo seu levou chifre (de novo) e precisa beber e conversar com alguém, aí você vai para o bar e só volta de madrugada com bafo de cerveja, quase na mesma hora que estou saindo para trabalhar de barriga vazia porque sua geladeira só tem coca-cola light e sem gás, latinha de cerveja, garrafa de rum, licor, resto de comida estragada do China da 48 e aqueles malditos biscoitos integrais que eu detesto e nunca entendi por que diabos você acha que são saudáveis. Custava fazer feira? Custava? Uma vez na vida, pelo menos?

geladeira vazia

E assim, de repente, o sexo e o nexo perdido da madrugada deixam de ser prioridades para elas também. As pequenas burguesas adoram reclamar da casa dos outros, sempre reclamam da falta de comida na geladeira. É fácil reclamar quando você não tem que pagar pela feira e fazer todo o esforço envolvido no processo de ir e voltar do supermercado.

E eu fico matutando o que custaria também se, antes de chegarem ao nosso feudo, elas humildemente parassem no mercadinho para comprar ao menos um lanche, esses sanduíches prontos de microondas, enfim, até mesmo uma bolacha Cream Cracker sem manteiga, qualquer coisa que faça elas pararem de reclamar de manhã cedo quando você está no auge da ressaca. E eu até me considerava um pequeno burguês por ter microondas em casa...

Na mesa de bar, todos iguais. No fundo do copo, nem tanto –

Se os economistas dizem que em economia não existe almoço grátis, os garçons dizem que no bar não existe café-com-leite. Mulheres que sabem (e gostam) de beber são cada vez mais difíceis de achar. Quando encontro uma, nem sequer me importo se é bonita ou feia, gorda ou magra, ela se torna simplesmente um ser iluminado e santo.

As papudinhas estão em notória extinção, infelizmente. As pequenas burguesas só pensam em academias, grifes, ir para balada aos 20 e casar antes de chegar aos 30. Quando sentam na mesa de bar resolvem pedir uma.... caipirosca. É ultrajante. Um disparate à falta de cabelos em nossa crescente careca. Por isso me orgulho tanto de algumas companheiras de copo que entendem a verdade etílica universal: na mesa de bar, somos todos iguais. Desde que você não peça uma caipirosca ou qualquer dessas bebidas coloridinhas e ridículas que parecem ki-suco.

Uma das pequenas burguesas, certa vez, virou para mim na mesa de bar e disse: “cara, você tem preconceito contra mulher que não bebe, contra mulher que bebe caipirosca, contra mulher fresca, contra mulher que ainda mora com os pais, contra mulher que não lê jornal, contra mulher que tem carteira de motorista e não consegue subir ladeira, enfim, o que diabos estou fazendo aqui tomando uma cerveja com você, me explica, sinceramente?

Sinceramente, eu também queria saber. Mas, nessas horas é melhor nem pensar no assunto porque a cerveja estava esquentando rápido enquanto ela tagarelava. Quando reclamam dos meus preconceitos etílicos (e elas sempre reclamam), a resposta é simples. “Acho que preconceito é para ser exercido, mas detesto gente preconceituosa, não estou entendendo porque você está tendo preconceito comigo somente porque estou a exercer meus preconceitos de forma livre e democrática. Acho que você está sendo preconceituosa com os meus preconceitos, isso revela um preconceito ainda maior e preconceito é uma coisa muito feia…”. Ela pediu outra cerveja e jurou que aprenderia a beber, só para não ouvir isso outra vez.

primeira aula é grátis

Para terminar a nossa lista de prioridades para o ano de 2007, que só vai começar mesmo depois do Carnaval como sempre, deveríamos todos começar pela mesa de bar. Afinal, é na mesa de bar que todo início de ano a gente relembra as pequenas burguesas que passaram e as grandes afeições que ficaram. Porque depois que todas passam, no fundo do copo sempre resta apenas uma lembrança que não se afoga. Até que a cerveja acaba, a luz se apaga e você se adapta. Lembranças de burguesas, agora só na base do fiado e que seja assinado com lápis grafite, para apagar com a espuma que cai do copo. [hipopocaranga]


Categoria: Relacionamentos
Escrito por Paulo Rebêlo às 21h42 [ ]
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Pequenas burguesas, grandes afeições – parte 1/2
Paulo Rebêlo

Janeiro é quando as pessoas costumam fazer aquelas listas inúteis de prioridades. É sempre a mesma coisa, em fevereiro a gente nem lembra mais da lista e no final do ano não fizemos metade do que imaginamos. E no próximo ano, o ciclo se repete e, num piscar de olhos, uma década se passa e a gente ainda não escreveu aquele livro, não plantou aquela árvore e não fez aquele filho. (oficialmente)

Em vez de perder cinco minutos pensando sobre nossos feitos e desfeitos, poderíamos perder cinco minutos refletindo sobre os feitos e desfeitos das outras pessoas na nossa vida e fazer uma lista de prioridades contra elas. É que depois de alguns anos, a gente olha para trás e percebe que, afinal, aquelas burguesas e patricinhas não eram tão burguesas e patricinhas assim. Hoje, quem sabe, tenham se transformado em donas-de-casa.
 
BALDE DE ÁGUA FRIA –
Sempre tive azar com chuveiros elétricos. Sempre queimavam e faltava-me habilidade mental para trocar a resistência. Resultado é que por vários meses não havia chuveiro elétrico, era banho gelado mesmo. Até resolver consertar para, dois meses depois, a resistência queimar novamente. Enchia o saco e ficava sem água quente até por seis meses ou mais.

Para homem, que toma banho rápido e pode fazer uns pós-de-chinelo (eu fazia três...) antes de entrar no chuveiro, água fria não é um martírio tão grande em uma cidade tropical. Mas sempre fiquei pensando como deve ser ruim para as pequenas burguesas - que usam xampú, condicionador, creminhos, sabonetes líquidos e outros bagulhos - tomarem banho gelado logo cedo pela manhã.

três pó-de-chinelo


Uma delas tinha a infelicidade de trabalhar às 6h. Quando a criatura virava a noite de arrego no cafofo, o despertador tocava às 5h e ela olhava para mim (que devia estar roncando feito um trator) e falava: “nem eu sei como ainda tenho coragem de dormir aqui, sabendo que você não vai consertar esse chuveiro, vou ter que tomar banho gelado às 5h enquanto você só vai acordar às 10h, só vai tomar banho de meio-dia, depois de almoçar naquele botequim imundo antes de pensar em começar a trabalhar para pagar o fiado naquele outro bar fedorento, mas uma maldita resistência de chuveiro elétrico você não compra...”

Eu até entendia a revolta da criatura, mas sempre achava que ela não ia mais ter paciência para voltar. Então, terminava nunca comprando uma resistência nova para o chuveiro e economizava na conta de energia no final do mês.

ESPORTE PREFERIDO –
Algumas mulheres têm como esporte preferido o ato de reclamar. Reclamam de tudo. Algumas dizem para os namorados: “sua casa vive cheia de poeira, você guarda esses jornais velhos na sala, no armário e até no quarto, parece um velho, e você sabe que sou alérgica a poeira, sempre que chego aqui vivo espirrando”.

Novamente, eu ficava me perguntando por que elas nunca se candidatam a fazer uma faxina, arrumar (e catalogar) meus jornais velhos ou, mais prático ainda, custear uma faxineira para fazer o serviço? Tem gente que acha que dinheiro cai do céu ou nasce em árvore. E é o que sempre digo: minha filha, se vaca voasse, chovia leite.

vaca não voa

Certa feita, a luz do banheiro queimou. Queimou várias vezes, aliás. Não sei o motivo de sempre queimar no banheiro. Acostumei a usar o recinto no escuro e também passava meses sem trocar a lâmpada. Era uma economia na conta e, de quebra, ainda estava treinando minhas habilidades ninjas na escuridão, como fazer a barba sem luz. De noite, bastava deixar a porta aberta que dava para tomar banho numa boa com o reflexo da luz da cozinha. Fiquei até feliz, pois percebi que não sou tão míope quanto imaginava.

Evidente que as reclamações não tardaram a aparecer: “as necessidades das mulheres no banheiro não são iguais a dos homens, é uma droga ficar aí dentro com a porta fechada, no escuro total... olha, sabe de uma coisa, só volto aqui quando você consertar essa lâmpada.” Diziam.

Eu ficava calado, matutando com meus botões e me perguntando por que elas nunca chegam trazendo uma lâmpada nova? Melhor ainda, vai lá e troca. Segunda-feira tem mais. [ hipopocaranga ]


Categoria: Relacionamentos
Escrito por Paulo Rebêlo às 23h12 [ ]
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Matou papai-noel e foi ao deserto
Paulo Rebêlo

Depois dos ataques terroristas do 11 de setembro, o terrorismo mudou de lado. Em vez dos loucos ensandecidos que entram em processo auto-explosivo em nome de um pseudo-deus qualquer, agora a gente precisa ter medo – e enfrentar – os terroristas que usam o crachá do aeroporto. Com leis de segurança ridículas que não funcionam, qualquer pessoa pode ser um terrorista em potencial. Eles fazem você tirar os sapatos, abrir a mala, confiscam seus pertences pessoais e mandam abrir o cinturão da calça na frente de todo mundo. E quando você está sem banho, sem fazer a barba, com a roupa amassada, cabelo despenteado e olheiras, a cena fica a um palmo de ir parar na delegacia mais próxima.
 
O problema é que esses gaiatos nunca pedem para as galegas boazudas fazerem o mesmo, como se apenas homens pudessem ter bombas amarradas na cintura. Quem me garante que a galega logo ali na frente não carrega explosivos amarrados nos peitos? Aliás, aqueles peitos enormes podem muito bem não ser peitos de verdade, mas explosivos. Explosivos de silicone, que sejam, mas explosivos. Só que os terroristas de crachá nunca nos dão a oportunidade de presenciar uma vistoria assim.


É incompreensível as pessoas insistirem nessa migração em massa para os céus sempre na véspera de Natal e logo depois das festas, em vez de todo mundo ficar em casa enchendo a cara de pinga, espetando a galinha de capoeira e cantando jingo-bell-acabou-o-papel. Não, a galera tem que pegar um danado de um avião, congestionar o trânsito inteiro – terrestre e aéreo – e ir sempre para os mesmos lugares romantiquinhos e luminosos. E depois da ceia de Natal em que familiares que se odeiam trocam abraços e apertos de mãos, todos voltam no mesmo avião agradecendo aos céus por aquilo ter acabado.

Este ano, meu Natal haveria de ser longe daquela criatura gorda e barbuda (não sou eu, falo do papai noel) e, por isso, resolvi imitar tirador de côco e entrei com os dois pés. Fui passar o Natal no deserto africano, nas portas do Saara, com camelos, dromedários, pseudo-árabes que falam inglês e, quem sabe, uma muçulmana não-ortodoxa, não-terrorista e preferencialmente não-exigente em matéria de homem.

Epopéia natalina –
O único porém é que para chegar nas portas do Saara é preciso viajar de avião e aterrisar em algum dos países do norte africano. E fazer conexões em aeroportos. E lidar com os terroristas aéreos. E com os outros passageiros. E enfrentar filas. Aturar atrasos nas decolagens. Pagar uma fortuna por um dedo de café. Ir ao banheiro com todas as malas e tropeçar em tudo na hora de usar o papel higiênico.

O terrorismo aéreo começa logo cedo. Ciente de que os aeroportos se transformam em manicômios durante feriados, chego com duas horas e meia de antecedência e um litro de cerveja preta no bucho para aguentar a provável fila do check-in. Quando olho, não vejo ninguém. Uma única alma viva não estava na fila da companhia aérea. Tá certo que ninguém quer ir para o deserto no Natal, mas assim também já é demais. Faço o check-in em cinco minutos e sobram duas horas para me dedicar ao provável esporte nacional do deserto na Tunísia: coçar o saco e assoviar.



Quando finalmente entro na minúscula fila para o raio-x das malas, eis que ele aparece: o terrorista de crachá. Eu não vi ninguém abrindo a mala, mas é claro que o gordo barbudo (agora sou eu, não o papai noel) tinha que ganhar na loteria e abrir a mala. As leis de segurança internacionais fizeram o terrorista de crachá confiscar, sem dó e sem piedade, meu desodorante novinho, meu creme de barbear novinho, meu xampú novinho e minha pasta de dentes novinha com efeito branco-refrescante. Tudo eu acabara de comprar na lojinha do aeroporto, pagando um valor superfaturado em pelo menos 500% porque havia esquecido em casa esses penduricalhos.

Desde agosto de 2006, é proibido levar líquidos por causa da celeuma do explosivo líquido. Mas, creme de barbear? Desodorante? Pasta de dente? E a catinga que vai ficar dentro do avião daqui a umas oito horas, depois das conexões, viradas de noite etc.? Não conta? Aparentemente, não conta. Enquanto isso, a mesma mala de mão tinha uma gilete de barbear, um isqueiro e uma tesourinha. Que não foram confiscados. Camelos me mordam!

Fiquei eu, sem pasta de dentes, sem poder fazer a barba, sem desodorante e sem xampú para os poucos cabelos que ainda me restam. Como ainda há uma semana pela frente, o jeito é pedir a Alá que a muçulmana não-ortodoxa, não-terrorista e não-exigente também tenha um não-olfato quando eu chegar no deserto com minha garrafinha de coca-cola e minha caricatura de Maomé.


Categoria: Comportamento
Escrito por Paulo Rebêlo às 15h49 [ ]
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Natal dos incluídos
Paulo Rebêlo

Dezembro é aquele mês no qual a gente descobre até onde vai a hipocrisia da sociedade. É quando aquele seu vizinho, grosso e mal-educado, é invadido por um espírito cívico e resolve bater à sua porta pedindo doações para ajudar os necessitados. É quando a madame resolve fazer campanha para arrecadar agasalhos para os moradores de rua - desde que as colunas sociais publiquem, claro - e acha que está compensando os milhares de reais que gastou, durante o ano inteiro, em roupas de grife que usou apenas uma vez. É quando seus colegas de trabalho, que passam o ano inteiro lhe criticando porque você dá esmola ou comida para o guri esfomeado no semáforo, resolvem se juntar para arrecadar cestas básicas para os esfomeados. Aparentemente, durante o resto do ano eles não sentem fome.

O mês é uma hipocrisia sem fim. Durante o ano inteiro, a gente sabe que, por conta da cultura consumista natalina, os preços do comércio sempre sobem em escala desproporcional a qualquer índice econômico imaginável. Mesmo assim, todo mundo deixa para comprar presentes de última hora e, na fila do caixa, todos reclamam durante quatro horas que o espírito de Natal se perdeu. Só que ninguém deixa de comprar os benditos presentes.


Familiares que se odeiam e passam o ano inteiro sem praticamente trocar uma palavra, são obrigados a seguir a tradição ridícula de se reunir na noite de Natal para uma ceia. Com sorrisos falsos, abraços forçados e presentes comprados de última hora, todos acham que estão celebrando alguma coisa. Só não sabem bem o quê.

Várias pessoas acreditam que as mudanças que ocorrem durante o Natal são a prova máxima, se é que existe a mínima, de que se trata de um período especial. Que as pessoas mudam para melhor. Mas, cinco dias depois do Natal, quando começa o próximo ano, tudo volta a ser como era e a única mudança é que o 13o. salário foi embora em presentes inúteis, peru magro e cerveja quente. Ah, e em cestas básicas. Não esqueçamos dos excluídos.

Caixinha é a mãe -
Se as madames aproveitam o Natal para nos lembrar como são preocupadas com o bem-estar dos excluídos, nada mais justo do que os excluídos aproveitarem o reino da hipocrisia para arrecadar um extra. Nas cidades grandes, não existe nada mais irritante do que as inúmeras caixinhas de Natal espalhadas em lanchonetes e bares. Hoje em dia, até barraca de pinga tem uma caixinha para arrecadar umas moedas.

Você vai almoçar seu prato-feito de R$ 3,00 e, na hora de receber o troco, se você não coloca ao menos umas moedinhas na caixinha, todos olham em sua direção insinuando que seu destino será passar o resto dos seus dias queimando no fogo dos infernos.

Certa vez, houve um botequim onde eu tomava café da manhã que bolou um esquema aterrorizante. Quando alguém colocava moeda na caixinha, o funcionário mais próximo berrava "caixinha!!!!!!" com toda a força dos pulmões. Era o código para avisar aos outros colegas. Em uma fração de milissegundos, todos os [quatro] funcionários paravam o que estavam fazendo, se aproximavam do cliente bom samaritano e gritavam, em uníssono: "muito obrigado, tenha um bom dia, um feliz Natal e ótimo ano-novo para você e toda sua família!!!!". E todo mundo sorria e batia palmas, era ridículo.

Que lindo, diriam os meigos. A vontade era de retribuir o natalino gesto, dizendo que meu dia será péssimo porque recebi o aviso prévio, estou sem dinheiro para comprar leite para meu filho de três anos e que toda minha família morreu ano passado em um acidente de carro na noite de Natal.

Sem segredos -
Eu não sei onde as pessoas arrumam tanto dinheiro para comprar presentes de 389 amigos-ocultos. Antigamente, as confrarias de Natal serviam para confraternizar, um jeito bonito de dizer "para encher a cara de cachaça". O que é meio óbvio. Hoje em dia, as confraternizações das empresas são sempre em lugares chiques, caros, longe de casa e empestados de patricinhas ultra-maquiadas e mulheres pseudo-independentes que não sabem beber. Como desgraça pouca é bobagem, metem a mão no 13º para comprar presente de amigo-secreto e ainda estipulam um preço mínimo. E você corre o risco de ter que presentear seu chefe, aquele mesmo cara que você passou o ano inteiro fantasiando em atropelar com uma Scania em alta velocidade e sem freios.

O excesso de confraternizações também nos leva a outro questionamento importante: será que as pessoas trabalham de verdade em dezembro? Quase todo dia tem confraternização para ir. Natal é um universo paralelo. É quando todos os homens são fiéis, todas as mulheres são normais e todas as crianças são felizes. Ainda bem que acaba logo.


Categoria: Comportamento
Escrito por Paulo Rebêlo às 07h36 [ ]
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