Natal dos incluídos
Paulo Rebêlo
Dezembro é aquele mês no qual a gente descobre até onde vai a hipocrisia da sociedade. É quando aquele seu vizinho, grosso e mal-educado, é invadido por um espírito cívico e resolve bater à sua porta pedindo doações para ajudar os necessitados. É quando a madame resolve fazer campanha para arrecadar agasalhos para os moradores de rua - desde que as colunas sociais publiquem, claro - e acha que está compensando os milhares de reais que gastou, durante o ano inteiro, em roupas de grife que usou apenas uma vez. É quando seus colegas de trabalho, que passam o ano inteiro lhe criticando porque você dá esmola ou comida para o guri esfomeado no semáforo, resolvem se juntar para arrecadar cestas básicas para os esfomeados. Aparentemente, durante o resto do ano eles não sentem fome.
O mês é uma hipocrisia sem fim. Durante o ano inteiro, a gente sabe que, por conta da cultura consumista natalina, os preços do comércio sempre sobem em escala desproporcional a qualquer índice econômico imaginável. Mesmo assim, todo mundo deixa para comprar presentes de última hora e, na fila do caixa, todos reclamam durante quatro horas que o espírito de Natal se perdeu. Só que ninguém deixa de comprar os benditos presentes.

Familiares que se odeiam e passam o ano inteiro sem praticamente trocar uma palavra, são obrigados a seguir a tradição ridícula de se reunir na noite de Natal para uma ceia. Com sorrisos falsos, abraços forçados e presentes comprados de última hora, todos acham que estão celebrando alguma coisa. Só não sabem bem o quê.
Várias pessoas acreditam que as mudanças que ocorrem durante o Natal são a prova máxima, se é que existe a mínima, de que se trata de um período especial. Que as pessoas mudam para melhor. Mas, cinco dias depois do Natal, quando começa o próximo ano, tudo volta a ser como era e a única mudança é que o 13o. salário foi embora em presentes inúteis, peru magro e cerveja quente. Ah, e em cestas básicas. Não esqueçamos dos excluídos.
Caixinha é a mãe -
Se as madames aproveitam o Natal para nos lembrar como são preocupadas com o bem-estar dos excluídos, nada mais justo do que os excluídos aproveitarem o reino da hipocrisia para arrecadar um extra. Nas cidades grandes, não existe nada mais irritante do que as inúmeras caixinhas de Natal espalhadas em lanchonetes e bares. Hoje em dia, até barraca de pinga tem uma caixinha para arrecadar umas moedas.

Você vai almoçar seu prato-feito de R$ 3,00 e, na hora de receber o troco, se você não coloca ao menos umas moedinhas na caixinha, todos olham em sua direção insinuando que seu destino será passar o resto dos seus dias queimando no fogo dos infernos.
Certa vez, houve um botequim onde eu tomava café da manhã que bolou um esquema aterrorizante. Quando alguém colocava moeda na caixinha, o funcionário mais próximo berrava "caixinha!!!!!!" com toda a força dos pulmões. Era o código para avisar aos outros colegas. Em uma fração de milissegundos, todos os [quatro] funcionários paravam o que estavam fazendo, se aproximavam do cliente bom samaritano e gritavam, em uníssono: "muito obrigado, tenha um bom dia, um feliz Natal e ótimo ano-novo para você e toda sua família!!!!". E todo mundo sorria e batia palmas, era ridículo.
Que lindo, diriam os meigos. A vontade era de retribuir o natalino gesto, dizendo que meu dia será péssimo porque recebi o aviso prévio, estou sem dinheiro para comprar leite para meu filho de três anos e que toda minha família morreu ano passado em um acidente de carro na noite de Natal.
Sem segredos -
Eu não sei onde as pessoas arrumam tanto dinheiro para comprar presentes de 389 amigos-ocultos. Antigamente, as confrarias de Natal serviam para confraternizar, um jeito bonito de dizer "para encher a cara de cachaça". O que é meio óbvio. Hoje em dia, as confraternizações das empresas são sempre em lugares chiques, caros, longe de casa e empestados de patricinhas ultra-maquiadas e mulheres pseudo-independentes que não sabem beber. Como desgraça pouca é bobagem, metem a mão no 13º para comprar presente de amigo-secreto e ainda estipulam um preço mínimo. E você corre o risco de ter que presentear seu chefe, aquele mesmo cara que você passou o ano inteiro fantasiando em atropelar com uma Scania em alta velocidade e sem freios.
O excesso de confraternizações também nos leva a outro questionamento importante: será que as pessoas trabalham de verdade em dezembro? Quase todo dia tem confraternização para ir. Natal é um universo paralelo. É quando todos os homens são fiéis, todas as mulheres são normais e todas as crianças são felizes. Ainda bem que acaba logo.
