Pequenas burguesas, grandes afeições – parte 1/2
Paulo Rebêlo

Janeiro é quando as pessoas costumam fazer aquelas listas inúteis de prioridades. É sempre a mesma coisa, em fevereiro a gente nem lembra mais da lista e no final do ano não fizemos metade do que imaginamos. E no próximo ano, o ciclo se repete e, num piscar de olhos, uma década se passa e a gente ainda não escreveu aquele livro, não plantou aquela árvore e não fez aquele filho. (oficialmente)

Em vez de perder cinco minutos pensando sobre nossos feitos e desfeitos, poderíamos perder cinco minutos refletindo sobre os feitos e desfeitos das outras pessoas na nossa vida e fazer uma lista de prioridades contra elas. É que depois de alguns anos, a gente olha para trás e percebe que, afinal, aquelas burguesas e patricinhas não eram tão burguesas e patricinhas assim. Hoje, quem sabe, tenham se transformado em donas-de-casa.
 
BALDE DE ÁGUA FRIA –
Sempre tive azar com chuveiros elétricos. Sempre queimavam e faltava-me habilidade mental para trocar a resistência. Resultado é que por vários meses não havia chuveiro elétrico, era banho gelado mesmo. Até resolver consertar para, dois meses depois, a resistência queimar novamente. Enchia o saco e ficava sem água quente até por seis meses ou mais.

Para homem, que toma banho rápido e pode fazer uns pós-de-chinelo (eu fazia três...) antes de entrar no chuveiro, água fria não é um martírio tão grande em uma cidade tropical. Mas sempre fiquei pensando como deve ser ruim para as pequenas burguesas - que usam xampú, condicionador, creminhos, sabonetes líquidos e outros bagulhos - tomarem banho gelado logo cedo pela manhã.

três pó-de-chinelo


Uma delas tinha a infelicidade de trabalhar às 6h. Quando a criatura virava a noite de arrego no cafofo, o despertador tocava às 5h e ela olhava para mim (que devia estar roncando feito um trator) e falava: “nem eu sei como ainda tenho coragem de dormir aqui, sabendo que você não vai consertar esse chuveiro, vou ter que tomar banho gelado às 5h enquanto você só vai acordar às 10h, só vai tomar banho de meio-dia, depois de almoçar naquele botequim imundo antes de pensar em começar a trabalhar para pagar o fiado naquele outro bar fedorento, mas uma maldita resistência de chuveiro elétrico você não compra...”

Eu até entendia a revolta da criatura, mas sempre achava que ela não ia mais ter paciência para voltar. Então, terminava nunca comprando uma resistência nova para o chuveiro e economizava na conta de energia no final do mês.

ESPORTE PREFERIDO –
Algumas mulheres têm como esporte preferido o ato de reclamar. Reclamam de tudo. Algumas dizem para os namorados: “sua casa vive cheia de poeira, você guarda esses jornais velhos na sala, no armário e até no quarto, parece um velho, e você sabe que sou alérgica a poeira, sempre que chego aqui vivo espirrando”.

Novamente, eu ficava me perguntando por que elas nunca se candidatam a fazer uma faxina, arrumar (e catalogar) meus jornais velhos ou, mais prático ainda, custear uma faxineira para fazer o serviço? Tem gente que acha que dinheiro cai do céu ou nasce em árvore. E é o que sempre digo: minha filha, se vaca voasse, chovia leite.

vaca não voa

Certa feita, a luz do banheiro queimou. Queimou várias vezes, aliás. Não sei o motivo de sempre queimar no banheiro. Acostumei a usar o recinto no escuro e também passava meses sem trocar a lâmpada. Era uma economia na conta e, de quebra, ainda estava treinando minhas habilidades ninjas na escuridão, como fazer a barba sem luz. De noite, bastava deixar a porta aberta que dava para tomar banho numa boa com o reflexo da luz da cozinha. Fiquei até feliz, pois percebi que não sou tão míope quanto imaginava.

Evidente que as reclamações não tardaram a aparecer: “as necessidades das mulheres no banheiro não são iguais a dos homens, é uma droga ficar aí dentro com a porta fechada, no escuro total... olha, sabe de uma coisa, só volto aqui quando você consertar essa lâmpada.” Diziam.

Eu ficava calado, matutando com meus botões e me perguntando por que elas nunca chegam trazendo uma lâmpada nova? Melhor ainda, vai lá e troca. Segunda-feira tem mais. [ hipopocaranga ]