Pequenas burguesas, grandes afeições - parte 2/2
Paulo Rebêlo
As mulheres reclamam que os homens só pensam em sexo, afirmação com a qual não concordamos, porque também pensamos em cerveja e futebol na TV.
Depois de refletir sobre os últimos dez anos na crônica anterior, a gente chega à conclusão de que as pessoas precisam ter prioridades na vida. E por que dez anos? Porque em um certo ponto desta década, não lembro exatamente quando, decidi que eventualmente sexo teria que dividir espaço com a mesa de bar na tal lista de prioridades. Assim, ninguém pode dizer que só pensamos naquilo, até porque as pequenas burguesas dos bares não bebem, apenas fingem que bebem, o que diminui em 90% nossa atenção a elas.
O problema é que a maioria das mulheres não consegue conviver em harmonia com essa realidade de prioridades. Elas até dizem que conseguem no início, mas depois reclamam, reclamam, reclamam. No entanto, o mais curioso não é a reclamação em si, mas a correlação que já conseguiram fazer com assuntos completamente diferentes – sem o menor sexo, ops, quero dizer, nexo aparente.
Certa feita, uma pequena burguesa assumiu: “às vezes você me deixa no meio da madrugada sozinha na sua casa porque um amigo seu levou chifre (de novo) e precisa beber e conversar com alguém, aí você vai para o bar e só volta de madrugada com bafo de cerveja, quase na mesma hora que estou saindo para trabalhar de barriga vazia porque sua geladeira só tem coca-cola light e sem gás, latinha de cerveja, garrafa de rum, licor, resto de comida estragada do China da 48 e aqueles malditos biscoitos integrais que eu detesto e nunca entendi por que diabos você acha que são saudáveis. Custava fazer feira? Custava? Uma vez na vida, pelo menos?”

E assim, de repente, o sexo e o nexo perdido da madrugada deixam de ser prioridades para elas também. As pequenas burguesas adoram reclamar da casa dos outros, sempre reclamam da falta de comida na geladeira. É fácil reclamar quando você não tem que pagar pela feira e fazer todo o esforço envolvido no processo de ir e voltar do supermercado.
E eu fico matutando o que custaria também se, antes de chegarem ao nosso feudo, elas humildemente parassem no mercadinho para comprar ao menos um lanche, esses sanduíches prontos de microondas, enfim, até mesmo uma bolacha Cream Cracker sem manteiga, qualquer coisa que faça elas pararem de reclamar de manhã cedo quando você está no auge da ressaca. E eu até me considerava um pequeno burguês por ter microondas em casa...
Na mesa de bar, todos iguais. No fundo do copo, nem tanto –
Se os economistas dizem que em economia não existe almoço grátis, os garçons dizem que no bar não existe café-com-leite. Mulheres que sabem (e gostam) de beber são cada vez mais difíceis de achar. Quando encontro uma, nem sequer me importo se é bonita ou feia, gorda ou magra, ela se torna simplesmente um ser iluminado e santo.
As papudinhas estão em notória extinção, infelizmente. As pequenas burguesas só pensam em academias, grifes, ir para balada aos 20 e casar antes de chegar aos 30. Quando sentam na mesa de bar resolvem pedir uma.... caipirosca. É ultrajante. Um disparate à falta de cabelos em nossa crescente careca. Por isso me orgulho tanto de algumas companheiras de copo que entendem a verdade etílica universal: na mesa de bar, somos todos iguais. Desde que você não peça uma caipirosca ou qualquer dessas bebidas coloridinhas e ridículas que parecem ki-suco.
Uma das pequenas burguesas, certa vez, virou para mim na mesa de bar e disse: “cara, você tem preconceito contra mulher que não bebe, contra mulher que bebe caipirosca, contra mulher fresca, contra mulher que ainda mora com os pais, contra mulher que não lê jornal, contra mulher que tem carteira de motorista e não consegue subir ladeira, enfim, o que diabos estou fazendo aqui tomando uma cerveja com você, me explica, sinceramente?”
Sinceramente, eu também queria saber. Mas, nessas horas é melhor nem pensar no assunto porque a cerveja estava esquentando rápido enquanto ela tagarelava. Quando reclamam dos meus preconceitos etílicos (e elas sempre reclamam), a resposta é simples. “Acho que preconceito é para ser exercido, mas detesto gente preconceituosa, não estou entendendo porque você está tendo preconceito comigo somente porque estou a exercer meus preconceitos de forma livre e democrática. Acho que você está sendo preconceituosa com os meus preconceitos, isso revela um preconceito ainda maior e preconceito é uma coisa muito feia…”. Ela pediu outra cerveja e jurou que aprenderia a beber, só para não ouvir isso outra vez.

Para terminar a nossa lista de prioridades para o ano de 2007, que só vai começar mesmo depois do Carnaval como sempre, deveríamos todos começar pela mesa de bar. Afinal, é na mesa de bar que todo início de ano a gente relembra as pequenas burguesas que passaram e as grandes afeições que ficaram. Porque depois que todas passam, no fundo do copo sempre resta apenas uma lembrança que não se afoga. Até que a cerveja acaba, a luz se apaga e você se adapta. Lembranças de burguesas, agora só na base do fiado e que seja assinado com lápis grafite, para apagar com a espuma que cai do copo. [hipopocaranga]

