Crônicas Ranzinzas - Hipopocaranga - UOL Blog
 
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 Comportamento



Vestidos e Unhas

Paulo Rebêlo

Pessoas têm fetiches. Certos fetiches são estranhos, mas pessoas também são estranhas. Há fetiches clássicos, como transar no elevador, no motel de beira de estrada, dentro do carro, em pé na rede da sala, no alto da roda-gigante, no banheiro do avião, em cima de um vagão de trem ou dentro de uma piscina de cerveja.

Engana-se quem pensa que fetiches são apenas carnais. Também podem ser detalhes alheios ao físico, como profissões e padrões de comportamento. Há mulheres com tara em costas masculinas, em bigodes, em gordinhos e, reza a lenda, até mesmo em carecas. As mulheres dizem que mulher tem tara mesmo é em cafajeste, mas isso elas só revelam entre amigas. O problema é que mulher tem fetiche demais. Se a gente deixar – ou incentivar – vai ser um fetiche diferente por dia.

É difícil fazer elas entenderem que conosco é bem mais simples toda essa história de fetiches: basta tirar a roupa. E quanto mais unidades femininas nesta condição, melhor. E se for ao mesmo tempo, é quase o nirvana. Evidentemente que nossa futilidade masculina não acaba por aí, mas, tudo bem, ocasionalmente podemos admitir certos diferenciais que fazem grandes diferenças, partindo da premissa de que ambos ainda estejam de roupa.
 
Há mulheres teimosas, cientes de que não devem perguntar esse tipo de coisa, mas perguntam do mesmo jeito. De bom humor, num belo dia de chuva do seu passado, você acende um charuto, pega aquele resto de licor Três Marias no freezer e começa a pensar.

Coça aqui, minha frô –
A maioria das mulheres nos acusam de machistas quando dizemos que preferimos cabelos longos. Fazer o quê? Oras, se até a branquinha mais fofa do cinema francês contemporâneo, a Juliette Binoche, que fez sucesso entre o público masculino com aquele cabelo sempre curto, hoje se exibe com lindos e longos cabelos, por que vocês também não podem? Essa praga moderna chamada de 'cabelo curto' se instalou na mente das nossas mulheres atuais, como tantas outras pragas modernas já xingadas em "queremos nossas mulheres de volta" -- (leia aqui)

Cabelos vermelhos, por exemplo, são tão interessantes quanto. Não vermelho sangue, mas aquele vermelho fogo, um vermelho tipo a Xena da televisão. Saias pretas, de pano ou tecido fino, também concorrem em pé de igualdade. Superficialidades, contudo... Nenhuma dessas escolhas chega aos pés das mulheres de vestidos. Elas são 'a bala que matou Kennedy', mas parece que não entendem. Ou não querem entender. Ou então gostam de implicar.

Aquele vestido quase-chique da balada tem o seu valor, tudo bem, mas nada se compara aos vestidinhos surrados, de casa, despojados, longos ou curtos. É fácil de colocar e de tirar. Tirar e colocar. Colocar e tirar. Sem trocadilhos. Ou não.

Vestidos simples deixam as mulheres mais simples. E mulheres simples costumam ser as mais interessantes, sobretudo neste mundo de hoje cujas mulheres parecem cada vez mais complexas e complexadas com tudo e com todos. Até com elas mesmo. Se é verdade o ditado que menos é mais, então uma mulher de vestido é muito mais.

Tem também aqueles vestidos longos com botões, aparentes ou escondidos por baixo do pano. E você desabotoa um por um, pacientemente, num ritual quase tão sagrado e compenetrado quanto o ritual de se preparar para assistir ao futebol dos domingos. Não é pouca coisa, acredite. Mas, quando isso acontece, às vezes são elas que não têm paciência de esperar todo o seu ritual de admiração; e puxam logo o vestido por cima. Bom, o que há de se fazer. Paciência, às cucuias com os botões.

Findo o processo de admiração e subsequente efetivação, talvez a criatura pergunte sobre a sua vida, quiçá os seus fetiches e gostos. Em horas assim, não há nada mais sacrossanto do que unhas em tamanho suficiente para que coçem suas costas ou a sua saliente pança peluda. Assim, como quem coça a um buldogue cansado de guerra. Aquele barulho de roc-roc-roc e aquelas unhas femininas e afiadas. Mulheres sem unhas desperdiçam todo um encanto no pós-desabotoamento o qual nem elas entendem.

E quando você termina de explicar todas essas futilidades para a criatura, achando que ela vai adorar por você estar compartilhando um pouco de seus gostos, ela simplesmente se mantém imóvel, respira fundo, analisa você dos pés à cabeça e dispara:

'cara, você vem reclamar dos nossos cabelos curtos, mas é praticamente careca, vive roendo suas unhas, provavelmente era fã daquele seriado com a sapatão da Xena, e sei que você adora almoçar naquele lugar cheio de riponga maconheira que usa aqueles vestidos indianos horrorosos. É óbvio que você tem fetiche em cabelos, unhas e vestidos, deve ser trauma de infância. Dá licença que vou embora, tu tens problemas.'

E pela porta ela se vai, puxando a calça jeans e sem precisar pentear o cabelo curto. Ah, tudo era tão mais simples quando nosso único fetiche era uma mulher pelada. Frô, volte aqui, o pulso ainda pulsa e as costas ainda coçam.


Escrito por Paulo Rebêlo às 02h44 [ ]
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Uma mesa de pôquer
Paulo Rebêlo

Por um motivo alheio à razão de quem joga, pôquer é um jogo que encanta os homens rapidamente e, na mesma proporção, não exerce a mesma influência nas mulheres. Tem gente que tenta procurar a relação do pôquer com futebol ou automóvel, até agora sem sucesso, para explicar o fenômeno. O irônico é que, das poucas mulheres que conheço adeptas de pôquer, todas jogam bem.

É uma pena que pôquer não tenha sequer metade do romantismo do cinema. Enquanto a gente joga, não há belas mulheres com as pernas de fora que ficam encostadas em nosso ombro. Não existe aquele cidadão que leva a filha/neta/sobrinha de microssaia e decote até o umbigo para atrapalhar a atenção dos outros jogadores e, assim, levar toda a bolada de dinheiro. Em uma mesa de pôquer, ninguém nunca tira o Royal Street Flush (o melhor jogo) na última rodada, como sempre acontece no cinema.

O jogo nunca é interrompido com alguém que arromba a porta e entra atirando. A gente não joga de paletó e gravata, no máximo uma camisa social quando vem do trabalho. O dinheiro que você perde sempre é quase a mesma quantia que você vai ganhar no próximo jogo. Depois de seis meses, você vai na sua planilha do Excel e percebe que perdeu tanto quanto ganhou, mas que aprendeu um bom bocado nas histórias que se conta na mesa. Pois, sim, também diferente do cinema, uma mesa de pôquer não é silenciosa. Geralmente é quando a gente encontra aquele pessoal que não tem tempo para jogar conversa fora no bar e, durante o jogo, todo mundo coloca o assunto em dia. É barulhenta. E desorganizada.

Não existe ninguém que anuncia as jogadas, nem ninguém com a única função de recolher e distribuir as fichas como acontece nos cassinos e, claro, no cinema. Quem joga é quem precisa contar as próprias fichas, prestar atenção se a conta de todo mundo está certa e, no final do jogo, organizar por cores, guardar na caixa e voltar para casa com aquele trambolho cheio de fichas coloridas nas costas.

E o mais difícil do pôquer – além de encontrar pessoas em número suficiente para jogar – é achar um lugar minimamente adequado para jogar. Ou seja, uma mesa de tamanho médio onde ninguém fique olhando para as cartas do outro e, preferencialmente, uma geladeira com congelador para fazer gelo. As mesas redondas são as melhores, pois ninguém fica exatamente lado a lado. E gelo de água de côco é sempre bem-vindo, para acompanhar com o uísque barato que o mais pão-duro da mesa sempre acha "ótimo".

Encontrar um lugar – geralmente, na casa de um dos participantes – é uma equação complicada. Porque como a maioria do povo é casado, há sempre o risco de a esposa/marido ficar em casa durante a jogatina. Quando isso acontece, ou a criatura vira papagaio de pirata (enxeridamente irritante) ou vai querer regular a hora de terminar o jogo, o barulho na casa por causa dos vizinhos, a bebida em excesso, o horário porque amanhã é dia de trabalho e já passou da meia-noite e assim por diante...

No caso dos solteiros, o problema é o inverso: a dificuldade é convencer as esposas/maridos a liberar o pobre cidadão de ir passar quatro horas temporariamente desligado ou fora da área de cobertura... jogando pôquer com outros quatro marmanjos barrigudos na casa de um cara solteiro. Elas sempre desconfiam, juram que será igualzinho ao cinema, com belas e magras mulheres sentadas no colo dos barrigudinhos e perguntando se a carta é de espadas ou de... paus.

LÁ e LÔ –
O fascínio do pôquer não reside na quantia que você ganha ou perde, quiçá na sorte durante a distribuição das cartas, mas, sim, no que você pode aprender sobre si mesmo. Para quem gosta de ler pessoas e observar comportamentos, é um prato cheio. De fichas.

Os cobras dizem que a diferença entre um bom jogador de pôquer e um jogador medíocre é a habilidade de blefar. E a diferença entre um bom jogador e um jogador melhor ainda é a habilidade de blefar apenas na hora certa. E o que leva um jogador realmente bom a um nível superior é a capacidade de ler as pessoas. Quando se aprende a ler o que as pessoas vão fazer em determinadas situações comuns, nada mais surpreende. No pôquer e na vida real.
 
E assim é a relação entre as pessoas. Blefes certos, blefes errados, mas sempre um resultado. Até o dia em que uma atitude ridiculamente surpreendente não surpreende. E a cada nova ficha na mesa, você se pergunta se teria apostado menos ou apostado mais se pudesse voltar ao início de uma rodada. Ou se teria investido mais ou investido menos se pudesse voltar no tempo em um determinado período da sua vida, nem que seja poucos anos atrás.

Depois de vários anos a tentar ler e antecipar o que as pessoas vão fazer, você pode finalmente parar de se surpreender. E quando as décadas de experiência enfim chegam, geralmente a gente não tem mais tempo de corrigir nada. Ou de mudar coisa alguma. Sobre isso, apenas na próxima crônica. [ email ]


Escrito por Paulo Rebêlo às 19h21 [ ]
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Queremos nossas mulheres de volta
Paulo Rebêlo

As mulheres deveriam dar um tapa,  uma unhada e um puxão de cabelo para cada parabéns recebido pelo dia internacional da mulher. Só não precisam jogar fora os presentes, mas deveriam abrir o pacote já reclamando – o que não seria de tão surpreendente, aliás. Deveriam comemorar o dia internacional do rim, que também cai neste 8 de março. O que seria das pessoas sem os rins? Imagine quantos pobres coitados não sofrem todos os anos com doenças renais.
 
O dia internacional do bicho bom só serve para duas coisas: aumentar a quantidade de presentes inúteis que a mulher ganha e nunca usa; e comprovar a teoria de que o mundo seria um lugar bem mais infeliz se as pessoas falassem sempre a verdade.

O presente é inútil porque homem não sabe comprar presente, muito menos para mulher. Isto é, quando a gente não esquece da data e compra um chaveiro de pelúcia com um coraçãozinho estampado, ali na loja de conveniência do posto enquanto abastece o carro ou espera o ônibus passar. E todos ficam felizes porque, durante o dia internacional do bicho bom, a gente pode falar para ela – sem peso na consciência – que de todas as mulheres do mundo a nossa é a mais bela. Sem peso na consciência porque ela sabe que não é verdade e que você só quer agradar, então todos se perdoam.

Aperte o cinto, a mulher sumiu –
Quem deveria comemorar o dia internacional do bicho bom somos nós, os homens. Deveríamos sair às ruas e reivindicar pela volta das nossas mulheres, ou melhor dizendo, pela volta das peculiaridades femininas que tanto nos encantam, mas que aos poucos as mulheres abandonam. Tem mulher deixando de ser mulher e, pior ainda, com orgulho. E não tem nada a ver com opção sexual.
 
Hoje em dia, a tal da ‘mulher moderna e globalizada’ está cada vez mais neurótica com a história de independência. E isso está abrindo uma verdadeira caixa da pandora, transformando nossas mulheres em réplicas da Kate Marrone, aquela que atira primeiro e nunca pergunta depois. Apenas grita, enquanto dá outro tiro na cabeça do defunto esparramado no chão.

No passado, fanáticos religiosos inventaram que mulher não podia usar calça comprida. Porque calça é coisa de homem e em mulher é pecado. Resultado: hoje a mulherada só quer usar calça comprida e queimou todos aqueles vestidinhos lindos e saias longas. Se a mulher não for uma jamanta, não existe nada mais sensual do que uma saia longa ou aquele vestidinho caseiro meio velhinho, bem diferente dos vestidos-pretos-tubinhos que a mulherada usa para ir à discoteca. Mas não, saias longas e vestidos caseiros não são mais coisas de mulher moderna e globalizada. A moda é calça comprida apertada-quase-rasgando para mostrar o cofrinho.

No passado, algum zé mané sem noção, provavelmente vendedor de calça jeans, inventou que as mulheres ficam modernas e globalizadas de jeans. Mentira, não existe nada mais brochante do que jeans, porque o jeans feminino parece ter apenas uma finalidade: mostrar uma realidade virtual. Ou ele deforma suas belas formas ou empina aquelas partes do corpo que você reconhecidamente não tem. Uma ilusão.

No passado, algum fanático machista (ou egoísta) falou que mulher não toma cerveja, porque é feio e sujo. Resultado, hoje temos uma legião de mulheres sóbrias e tediosas, que sentam no bar para pedir uma caipirosca durante a noita inteira, ficam sem assunto interessante para conversar porque não conseguem abrir os horizontes cerebrais que uma boa cerveja ou uma boa dose de uísque proporciona. E depois da segunda caipirosca, que nada mais é do que suco com três gotas de vodca da pior qualidade que dá ressaca, elas olham e pedem para você provar, porque supostamente a bebida está forte. É claro que está forte, hoje em dia elas não têm mais fígado, têm apenas patê de fígado.

No passado, algum pseudo-machão enrustido falou que as mulheres eram injustiçadas pela natureza, porque apenas elas sabiam as dores e dificuldades de ter filhos. Resultado, hoje cresce exponencialmente a quantidade de mulheres metropolitanas que não querem ter filhos, algumas até passam mal só de pensar na idéia de carregar um rebento no enorme bucho por nove meses. Quer dizer, daqui a uns 30 ou 40 anos, quando a gente estiver gagá e viúvo, não vamos ter ninfetas colegiais/universitárias para babar e nos chamarem de velhinhos tarados. Culpa das mulheres atuais.

No passado, alguma mulher gorda e feia, e que não conseguia pegar homem nenhum, inventou de dizer que cozinha não é lugar de mulher, que é lugar de empregada doméstica ou de escravo. O que ela queria, de verdade, era apenas que todas as outras mulheres do mundo ficassem na mesma situação, ou seja, sem macho. E deu certo. Hoje, a mulher moderna e globalizada se orgulha de dizer que não sabe cozinhar, que cozinha não é lugar para ela, como se isso fosse uma prova de modernidade, de indepêndencia.

Curiosamente, essas mulheres não percebem que os homens casados mais felizes são aqueles que comem bem. Em todos os sentidos, mas sempre há controvérsias. Unanimidade, apenas o prazer de comer um jantarzinho caseiro, sem fricotes, mas feito com boa vontade para dividir a ração. A mulher moderna não quer saber de cozinha, acha que o pensamento globalizado é sempre na lógica de que cozinha não combina com feminismo.

Agora é fácil de entender porque a maioria das mulheres modernas e globalizadas não gosta da letra do Mário Lago. Talvez seja o desconforto quando Ataulpho Alves ou Demônios da Garoa cantam: ‘a Amélia se foi, ai que saudades da Amélia, ela sim é que era mulher de verdade...’.


Escrito por Paulo Rebêlo às 18h19 [ ]
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Matou papai-noel e foi ao deserto
Paulo Rebêlo

Depois dos ataques terroristas do 11 de setembro, o terrorismo mudou de lado. Em vez dos loucos ensandecidos que entram em processo auto-explosivo em nome de um pseudo-deus qualquer, agora a gente precisa ter medo – e enfrentar – os terroristas que usam o crachá do aeroporto. Com leis de segurança ridículas que não funcionam, qualquer pessoa pode ser um terrorista em potencial. Eles fazem você tirar os sapatos, abrir a mala, confiscam seus pertences pessoais e mandam abrir o cinturão da calça na frente de todo mundo. E quando você está sem banho, sem fazer a barba, com a roupa amassada, cabelo despenteado e olheiras, a cena fica a um palmo de ir parar na delegacia mais próxima.
 
O problema é que esses gaiatos nunca pedem para as galegas boazudas fazerem o mesmo, como se apenas homens pudessem ter bombas amarradas na cintura. Quem me garante que a galega logo ali na frente não carrega explosivos amarrados nos peitos? Aliás, aqueles peitos enormes podem muito bem não ser peitos de verdade, mas explosivos. Explosivos de silicone, que sejam, mas explosivos. Só que os terroristas de crachá nunca nos dão a oportunidade de presenciar uma vistoria assim.


É incompreensível as pessoas insistirem nessa migração em massa para os céus sempre na véspera de Natal e logo depois das festas, em vez de todo mundo ficar em casa enchendo a cara de pinga, espetando a galinha de capoeira e cantando jingo-bell-acabou-o-papel. Não, a galera tem que pegar um danado de um avião, congestionar o trânsito inteiro – terrestre e aéreo – e ir sempre para os mesmos lugares romantiquinhos e luminosos. E depois da ceia de Natal em que familiares que se odeiam trocam abraços e apertos de mãos, todos voltam no mesmo avião agradecendo aos céus por aquilo ter acabado.

Este ano, meu Natal haveria de ser longe daquela criatura gorda e barbuda (não sou eu, falo do papai noel) e, por isso, resolvi imitar tirador de côco e entrei com os dois pés. Fui passar o Natal no deserto africano, nas portas do Saara, com camelos, dromedários, pseudo-árabes que falam inglês e, quem sabe, uma muçulmana não-ortodoxa, não-terrorista e preferencialmente não-exigente em matéria de homem.

Epopéia natalina –
O único porém é que para chegar nas portas do Saara é preciso viajar de avião e aterrisar em algum dos países do norte africano. E fazer conexões em aeroportos. E lidar com os terroristas aéreos. E com os outros passageiros. E enfrentar filas. Aturar atrasos nas decolagens. Pagar uma fortuna por um dedo de café. Ir ao banheiro com todas as malas e tropeçar em tudo na hora de usar o papel higiênico.

O terrorismo aéreo começa logo cedo. Ciente de que os aeroportos se transformam em manicômios durante feriados, chego com duas horas e meia de antecedência e um litro de cerveja preta no bucho para aguentar a provável fila do check-in. Quando olho, não vejo ninguém. Uma única alma viva não estava na fila da companhia aérea. Tá certo que ninguém quer ir para o deserto no Natal, mas assim também já é demais. Faço o check-in em cinco minutos e sobram duas horas para me dedicar ao provável esporte nacional do deserto na Tunísia: coçar o saco e assoviar.



Quando finalmente entro na minúscula fila para o raio-x das malas, eis que ele aparece: o terrorista de crachá. Eu não vi ninguém abrindo a mala, mas é claro que o gordo barbudo (agora sou eu, não o papai noel) tinha que ganhar na loteria e abrir a mala. As leis de segurança internacionais fizeram o terrorista de crachá confiscar, sem dó e sem piedade, meu desodorante novinho, meu creme de barbear novinho, meu xampú novinho e minha pasta de dentes novinha com efeito branco-refrescante. Tudo eu acabara de comprar na lojinha do aeroporto, pagando um valor superfaturado em pelo menos 500% porque havia esquecido em casa esses penduricalhos.

Desde agosto de 2006, é proibido levar líquidos por causa da celeuma do explosivo líquido. Mas, creme de barbear? Desodorante? Pasta de dente? E a catinga que vai ficar dentro do avião daqui a umas oito horas, depois das conexões, viradas de noite etc.? Não conta? Aparentemente, não conta. Enquanto isso, a mesma mala de mão tinha uma gilete de barbear, um isqueiro e uma tesourinha. Que não foram confiscados. Camelos me mordam!

Fiquei eu, sem pasta de dentes, sem poder fazer a barba, sem desodorante e sem xampú para os poucos cabelos que ainda me restam. Como ainda há uma semana pela frente, o jeito é pedir a Alá que a muçulmana não-ortodoxa, não-terrorista e não-exigente também tenha um não-olfato quando eu chegar no deserto com minha garrafinha de coca-cola e minha caricatura de Maomé.


Escrito por Paulo Rebêlo às 15h49 [ ]
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Natal dos incluídos
Paulo Rebêlo

Dezembro é aquele mês no qual a gente descobre até onde vai a hipocrisia da sociedade. É quando aquele seu vizinho, grosso e mal-educado, é invadido por um espírito cívico e resolve bater à sua porta pedindo doações para ajudar os necessitados. É quando a madame resolve fazer campanha para arrecadar agasalhos para os moradores de rua - desde que as colunas sociais publiquem, claro - e acha que está compensando os milhares de reais que gastou, durante o ano inteiro, em roupas de grife que usou apenas uma vez. É quando seus colegas de trabalho, que passam o ano inteiro lhe criticando porque você dá esmola ou comida para o guri esfomeado no semáforo, resolvem se juntar para arrecadar cestas básicas para os esfomeados. Aparentemente, durante o resto do ano eles não sentem fome.

O mês é uma hipocrisia sem fim. Durante o ano inteiro, a gente sabe que, por conta da cultura consumista natalina, os preços do comércio sempre sobem em escala desproporcional a qualquer índice econômico imaginável. Mesmo assim, todo mundo deixa para comprar presentes de última hora e, na fila do caixa, todos reclamam durante quatro horas que o espírito de Natal se perdeu. Só que ninguém deixa de comprar os benditos presentes.


Familiares que se odeiam e passam o ano inteiro sem praticamente trocar uma palavra, são obrigados a seguir a tradição ridícula de se reunir na noite de Natal para uma ceia. Com sorrisos falsos, abraços forçados e presentes comprados de última hora, todos acham que estão celebrando alguma coisa. Só não sabem bem o quê.

Várias pessoas acreditam que as mudanças que ocorrem durante o Natal são a prova máxima, se é que existe a mínima, de que se trata de um período especial. Que as pessoas mudam para melhor. Mas, cinco dias depois do Natal, quando começa o próximo ano, tudo volta a ser como era e a única mudança é que o 13o. salário foi embora em presentes inúteis, peru magro e cerveja quente. Ah, e em cestas básicas. Não esqueçamos dos excluídos.

Caixinha é a mãe -
Se as madames aproveitam o Natal para nos lembrar como são preocupadas com o bem-estar dos excluídos, nada mais justo do que os excluídos aproveitarem o reino da hipocrisia para arrecadar um extra. Nas cidades grandes, não existe nada mais irritante do que as inúmeras caixinhas de Natal espalhadas em lanchonetes e bares. Hoje em dia, até barraca de pinga tem uma caixinha para arrecadar umas moedas.

Você vai almoçar seu prato-feito de R$ 3,00 e, na hora de receber o troco, se você não coloca ao menos umas moedinhas na caixinha, todos olham em sua direção insinuando que seu destino será passar o resto dos seus dias queimando no fogo dos infernos.

Certa vez, houve um botequim onde eu tomava café da manhã que bolou um esquema aterrorizante. Quando alguém colocava moeda na caixinha, o funcionário mais próximo berrava "caixinha!!!!!!" com toda a força dos pulmões. Era o código para avisar aos outros colegas. Em uma fração de milissegundos, todos os [quatro] funcionários paravam o que estavam fazendo, se aproximavam do cliente bom samaritano e gritavam, em uníssono: "muito obrigado, tenha um bom dia, um feliz Natal e ótimo ano-novo para você e toda sua família!!!!". E todo mundo sorria e batia palmas, era ridículo.

Que lindo, diriam os meigos. A vontade era de retribuir o natalino gesto, dizendo que meu dia será péssimo porque recebi o aviso prévio, estou sem dinheiro para comprar leite para meu filho de três anos e que toda minha família morreu ano passado em um acidente de carro na noite de Natal.

Sem segredos -
Eu não sei onde as pessoas arrumam tanto dinheiro para comprar presentes de 389 amigos-ocultos. Antigamente, as confrarias de Natal serviam para confraternizar, um jeito bonito de dizer "para encher a cara de cachaça". O que é meio óbvio. Hoje em dia, as confraternizações das empresas são sempre em lugares chiques, caros, longe de casa e empestados de patricinhas ultra-maquiadas e mulheres pseudo-independentes que não sabem beber. Como desgraça pouca é bobagem, metem a mão no 13º para comprar presente de amigo-secreto e ainda estipulam um preço mínimo. E você corre o risco de ter que presentear seu chefe, aquele mesmo cara que você passou o ano inteiro fantasiando em atropelar com uma Scania em alta velocidade e sem freios.

O excesso de confraternizações também nos leva a outro questionamento importante: será que as pessoas trabalham de verdade em dezembro? Quase todo dia tem confraternização para ir. Natal é um universo paralelo. É quando todos os homens são fiéis, todas as mulheres são normais e todas as crianças são felizes. Ainda bem que acaba logo.


Escrito por Paulo Rebêlo às 07h36 [ ]
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