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 Super Ranzinza



Eremita Insone S.A.

Paulo Rebêlo ( email )

Quando você aprende a conviver em harmonia com a insônia, ela pode até se tornar uma aliada. Enquanto os outros dormem, abre-se um universo paralelo que inclui pessoas, lugares, cheiros, comidas e até animais que, a priori, não existem para a sociedade do horário comercial.

Depois de anos por amaldiçoar frustrações passadas pela insônia, com o tempo de aprendizado noturno as pessoas começam a reclamar é quando o sono chega antes de o sol nascer. Pois é justamente nesse horário, no qual até os meliantes adormecem, que você consegue apreciar o azul de uma bebida, o sabor de uma conversa e a compaixão de um vira-lata.

Com o tempo, você identifica aqueles lugares cujas portas não fecham antes do primeiro raio de sol. Ali, você vai encontrar sempre os mesmos garçons puxando uma soneca enquanto não aparece um cliente. Ao entrar, eles se recompõem, ajeitam a gravata na gola e se aproximam rapidamente. Não para trazer o cardápio, não para perguntar qual é a bebida. Porque tudo isso eles já sabem decorado.

Aproximam-se para reclamar. Afinal, já faz tempo desde sua última visita. Eventualmente, pedem para você olhar um caderno com exercícios do supletivo que o filho está cursando, mas que ele não sabe resolver os problemas. E às vezes eles não falam nada, apenas trazem sua dose e seu bife, em silêncio, pois sabem que quando você chega com o bloco de anotações à mão é porque quer apenas escrever em cima da mesa, sem ninguém por perto e sem importunos.

Dissabores noturnos –
O silêncio é o bem mais caro da madrugada.

Pois, é com o silêncio nas ruas que você ensurdece perdido em idéias e questionamentos nem sempre cartesianos. E é com o mesmo silêncio que você consegue escutar de forma tão voraz o som dos primeiros roncos de motores de ônibus, uma espécie de aviso prévio da manhã comercial que se aproxima.

E enquanto se volta para casa, você se torna um privilegiado ao poder experimentar o sabor de uma fruta fresquinha, às 5h da manhã, quando o vendedor ainda nem armou o carrinho para começar a vender logo mais. É um prêmio pelo seu companheirismo de estar ali, como quem diz: ‘você não está sozinho nesse mato-sem-cachorro’.

E por falar em cães, eles talvez não sejam tão amigos quanto o cachorro-engarrafado do Vinícius, mas certamente conseguem sentir o cheiro do sono quando chega. São os primeiros a aparecer, lentamente, desgovernados pela rua, quase como lhe protegendo de seres sobrenaturais cujas narinas caninas conseguem sentir de longe, enquanto se caminha pela rua deserta. Se você voltar ao mesmo local durante o dia e procurar aquele vira-lata, ele não vai estar. Talvez, assim como nós, ele seja insone e apareça apenas durante a madrugada, sem hora marcada, mas nunca na hora errada.

Durante a semana, você aproveita para aprender com as histórias de vida de gente que sabe muito mais de vida do que você. Os porteiros largam e vão tomar um leite pingado com uma fatia de pão e margarina. Os garçons sabem de tudo o que acontece na cidade, você não precisa mais nem comprar jornal. Os motoristas de bacurau dão as melhores dicas de bares discretos para você levar a amante. Dicas muito bem aproveitadas pelos seus amigos casados, aliás, são quem precisa.

No final de semana, contudo, é a sua hora de repassar conhecimento adiante. É quando aqueles guris saem das boates e baladas, fazendo barulho e cantando alto, como se fossem os donos da rua e tivessem o direito de acordar os felizes homens e mulheres que adormecem, juntos um ao outro.

E você, que nem fuma essas coisas caretas, precisa tirar um Malboro do bolso da camisa xadrez, acender, baforar vagarosamente enquanto caminha de encontro a eles, fitando-os. E os mais perspicazes baixam o tom de voz, ou mesmo se calam, como se estivessem finalmente aprendendo que na vida real o silêncio sempre fala mais alto. Desde que você aprenda a ouvir.

Cheiros de madrugada –
Você chega à praia e não consegue entender como a maresia e o cheiro de areia molhada são tão diferentes de madrugada. É apenas neste horário que você pode se deitar na areia de roupa e deixar a onda bater, sem parecer doido. E consegue ouvir quase todas as frequências sonoras de cada onda que se quebra.

Ao ir embora e ao ver os vendedores dormindo naquelas grutas no subsolo das barracas de coco, entende que seu ideal de desapego material ainda está longe de se concretizar, mas que agora não é mais hora para se pensar nisso, mas de voltar para casa – pois ao dobrar a esquina, já é possível ver o primeiro clarão de sol, não mais alaranjado e denso como outrora, mas agora esparso e amarelo claro. É o aviso final que o dia já chegou.

A última tangerina já se foi, ficou com o jornaleiro, um dos caras que você mais admira na madrugada. Submerso naquele cheiro ruim de papel-jornal, ele vende, mas não acredita naquelas fabricações irreais que você mesmo ajuda a fabricar. Mas, acredita em você que sempre promete pagar o jornal na hora do almoço, logo mais quando passar em direção ao trabalho.

Pálpebras pesadas, você chega em casa procurando as mesmas respostas que sua insônia sempre lhe negou. Uma batalha que se dá por vencida, há muito, restando somente o refúgio de uma rede velha armada no meio da sala, entre camisas, papéis espalhados e lembranças.

O cansaço e o peso do horário decerto não lhe deixam sonhar, mas logo mais à noite ela volta a fazer-lhe a mesma pergunta enquanto você tenta esquecê-la. Porque é a mão dela lhe puxando para a rua como quem partiu e não devia. Ou talvez seja apenas a mão pesada da insônia. Não faz diferença, porque ninguém nunca disse que era hora de partir. E mesmo assim; assim ela se foi.


Escrito por Paulo Rebêlo às 02h56 [ ]
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Viagra da folha em branco
Paulo Rebêlo

Não há nada mais ridículo do que a chamada síndrome da folha em branco. Pura enrolação, serve para preencher o tabelado espaço no jornal quando grandes escritores e consagrados cronistas ficam sem assunto – um eufemismo para preguiça ou ressaca do uísque falsificado de ontem. Então, escrevem sobre a falta de assunto até preencher os centímetros restantes.

Em inúmeras oportunidades, fala-se sobre a síndrome. É quando você olha para aquele papel dentro da máquina de datilografar, hoje a tela branca de fundo no Word,  mas não consegue pensar sequer numa idéia para escrever aos leitores que, numa equação de seis graus de separação, são aqueles que pagam para você ruminar sobre a presente falta de assunto e corrente fase de medo da folha em branco.

Outros usam o argumento da 'falta de inspiração'. Como se fosse preciso inspiração para pagar o aluguel, as contas de água, luz e telefone, para comprar o café-com-pão-manteiga-não. Balela. Quem precisa de inspiração é tuberculoso e aspirador de pó.

Se um jornalista chega para o chefe e diz que não pode escrever a reportagem por não estar inspirado, aquela sem dúvida será a última respiração dele. Se eu chego para minha gerente do banco e digo que não posso quitar a fatura do cartão porque estou sem inspiração para escrever, ela vai me dizer que o banco também não tem inspiração para filantropia.

Mas, quando um grande escritor ou um cronista consagrado não manda a coluna para o jornal sob alegações de estar sem inspiração, não tem problema. Talvez, até telefonem para ele e perguntem se precisa de algo, tipo uma garrafa nova de uísque importado, um charuto cubano, uma mulher com todos os dentes e sem bite-bite, enfim, um agrado qualquer.

Na semana seguinte, a criatura inspirada (e expirada) vai comentar sobre os e-mails e cartas de leitores preocupados com o sumiço. E na semana posterior, o arataca vai falar sobre as agruras de um cronista quando fica sem assunto. Na terceira semana, vai culpar a síndrome da folha em branco que já acometeu – supostamente – os maiores escritores da história. Não segundo eles, obviamente, mas segundo os preguiçosos que não sabem mais o quê escrever.

E quanto a você, que precisa escrever não apenas por necessidade financeira, mas também por necessidade psicológica, resta apenas usar estratégias belicistas de incentivo. Uma espécie de viagra da pseudo-literatura.

Há diferentes meios. A mais óbvia é pegar todas aquelas contas atrasadas e pendurar com fita isolante nas bordas do monitor. Assim, você não consegue se concentrar em mais nada e começa a escrever frases, quase no modo automático, ciente de que síndrome da folha em branco é pura frescura, invenção de gente preguiçosa.

Tão eficiente quanto, outra estratégia é pedir para a baranga da sua namorada, ou esposa, colocar uma roupa sexy e lhe esperar no quarto com a luz acesa. Depois de dez minutos, ao entrar no recinto e bater de frente com aquela visão do inferno, você vai relembrar de morbidez ainda pior: a síndrome da falta de sexo matrimonial. E a tal da folha em branco vai parecer brincadeira de criança de tão simples. Irá voltar ao escritório e, se brincar, escrever até um livro inteiro até amanhecer o dia.

Há inúmeras outras táticas, mas o espaço acabou. E diferentemente dos grandes escritores e consagrados cronistas, você não vai dar o mapa da mina, assim, de mão beijada. Agora, a única coisa a fazer é passar mais uma hora revisando o texto, trocando palavras e gerúndios, enquanto reza para que a baranga no quarto ao lado tenha enfim adormecido.

Logo você, pedindo favor aos céus. Tudo porque as contas estão atrasadas e você não teve dinheiro para comprar sequer um colchonete e colocar no escritório. Em momentos assim, de repente poderia escrever sobre a sensação de dormir no ambiente de trabalho, em meio a jornais velhos, revistas rasgadas, CDs, fios, farelos de biscoito e eventualmente umas baratas mortas.

Maldita síndrome.


Escrito por Paulo Rebêlo às 01h20 [ ]
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Estrangeiro, brasileiro - parte 1
Paulo Rebêlo

Ser brasileiro em terra estrangeira significa que você pode ser qualquer um e ninguém ao mesmo tempo. Não é à toa que passaporte brasileiro vale tanto no mercado negro, mas ninguém parece lembrar desse detalhe na vida real. O estereótipo é universal: somos morenos, atléticos, conquistadores e barulhentos. O problema de ser um brasileiro nem um pouco brasileiro – baixinho, branquelo, redondo, quieto e nada galanteador – é que ninguém acredita que você é brasileiro. Nem que mostre o passaporte. E todo mundo vai achar que você é mesmo um mentiroso.

É comum a gente ser confundido com americano, português, holandês, húngaro, francês e provavelmente com tantas outras nacionalidades que não lembro agora, mas ninguém arrisca dizer que sou brasileiro mesmo quando visto uma camisa com a bandeira do Brasil no peito. É normal, compreensível, mas tudo na vida precisa ter um limite. E o meu limite de frustração-pátria encerrou-se quando me perguntaram se eu era mongolês. Ou seria mongol? Mongol devo ter sido sempre, mas refiro-me aos residentes da Mongólia.

No início, pensei que não estava entendendo o idioma, ou até que fosse piada, mas aquela simpática jovem senhora chinesa realmente estava crente que eu seria um quase conterrâneo. Eu acabara minha refeição naquele restaurante na periferia do qual fui vizinho por meses e, não mais que de repente, a criatura fala comigo em chinês e espera uma resposta.

Claro que não entendo, repito apenas “English?” com meu sotaque 'orgulho de ser nordestino' e ela tenta falar uma mistura de húngaro, inglês, chinês e talvez outro idioma qualquer. Apenas o suficiente para eu entender que ela perguntava se eu era mongolês. Eu disse que não, falei que era do Brasil (ela não entendeu o nome do país) e achei que o assunto tinha acabado por ali mesmo.

Paguei a conta, frustrado, já pensando em chegar em casa e comprar pela internet várias bandeiras brasileiras para andar com elas amarradas nas costas que nem a capa do Super-Homem. Quando pedi a conta, a simpática-jovem-senhora-chinesa não trouxe apenas a conta, trouxe também um mapa-mundi e abriu em cima de mesa, ficou apontando para a Mongólia e apontando para mim, sorrindo como se estivesse encontrado o irmão perdido há décadas para o exército de Mao.

Dei uma risada discreta para não parecer rude, falei Brasil novamente e apontei no mapa, ela se mostrou confusa e apontou para a China, para a Mongólia e, em seguida, para ela. Depois, apontou novamente para a Mongólia e indicou o dedo para mim. Não ia adiantar mostrar carteira de imprensa com o nome BRASIL em letras graúdas, então apenas ri à toa e fui embora, cabisbaixo.

Tudo bem, tenho cá meus olhos ligeiramente puxados por causa da genética paraense, ou seja, um bocado de raiz indígena; fato que ninguém também acredita, porque índio branquelo, careca e peludo é quase tão fácil de achar quanto um jacaré albino. Tudo bem, estava sem fazer a barba há quase duas semanas, cansado e de ressaca, de repente eu poderia parecer um asiático-albino, quem sabe. De qualquer forma, Mongólia é difícil de engolir.

Apesar de ser viciado em cinema oriental há anos e até escrever sobre o assunto, só assisti a um filme da Mongólia até hoje. Foi o ótimo “Camelos também choram”, uma produção conjunta da Mongólia e da Alemanha filmada em 2003. Ao lembrar daquele filme, notei que os atores-mongoloses também são baixinhos, redondinhos e, claro, têm olhos meio puxados. Só que não são branquelos.

E minha grande pergunta é: serão os mongoleses também peludos?


Escrito por Paulo Rebêlo às 09h48 [ ]
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Aula de Ioga
Paulo Rebêlo

As pessoas têm uma dificuldade imensa em aceitar a própria natureza. Outro dia, uma colega ucraniana vem dizer que eu deveria experimentar uma aula de ioga. Supostamente, assim teria mais energia e não ficaria bocejando a tarde inteira. Fiquei pensando se não seria mais fácil e teria o mesmo efeito se eu, na hora do almoço, comesse algo um pouco mais leve no lugar do bife com feijão, macarrão, batata e maionese. Talvez eu pudesse dispensar a maionese.

A ucraniana insistiu. ‘Você vai gostar, depois da aula me sinto tão leve, cheia de energia, o mundo parece melhor, parece que estou flutuando’… – disse ela. Nessa hora, não sabia mais se ainda estávamos falando de ioga ou se ela me chamava para fumar um baseado importado da Ucrânia. Seria ioga a marca do fumo?

maconhão ucraniano


Pacientemente, expliquei à criatura que certas pessoas têm todos os motivos do mundo para não praticarem ioga.

Primeiro, ioga é saudável. É como suco natural da fruta, meu organismo não foi moldado para coisas saudáveis. Segundo, ioga custa caro. Cada aula custaria R$ 7,00 para apenas uma hora. Pela mesma duração e com o mesmo valor, podemos comprar duas cervejas e um pacotinho de torresmo. Terceiro, ioga é coisa de mulher, é tudo muito leve e zen. Quarto, não gosto de sociabilidades com muita gente por metro quadrado, com exceção do estádio de futebol [...] A criatura não sossegou e não entendeu que meus motivos eram mais do que suficientes. Não entendo esse povo gringo. Ela virou-se e disse: “são apenas dez pessoas na aula e nove são mulheres, todas são novas e bem bonitinhas…”

Foi então que conclui: às vezes, um homem precisa superar os preconceitos e zelar pela saúde.

UM TAPINHA NÃO DÓI –
Do topo do meu metro e meio de altura, quando olhei para aquela ucraniana de 1.75m, loira dos olhos azuis e com IGC (índice de gordura corporal) bem próximo de 0%, fiquei sem entender por quê nunca me preocupei antes com minha saúde.

Ao entrar na sala de ioga, olho para as outras nove mulheres que incrivelmente também têm IGC próximo de zero, olho para minha enorme pança peluda e só então entendo. A instrutora me garantiu que seria uma aula leve, já que eu era novato. Nunca imaginei que ioga tivesse diferenciação entre aulas leves e pesadas, afinal, é tudo tão zen. Vinte minutos depois, eu estava suando feito um porco condenado ao espeto e prometi que nunca na minha vida iria saber como é uma aula pesada de ioga.

que beleza...

Braços para frente, pernas para trás, tronco para cima, alonga e estica, vira, alonga, vira, estica, muda o braço, muda a perna, pronto, virei um nó e agora não consigo mais desatar. Olhei para o resto da sala, aquelas lindas donzelas com as roupinhas coladas e barriguinha para fora, mas a única coisa que consegui prestar atenção foi que todas estavam com o rosto limpinho e seco, enquanto apenas eu tinha que desatar o nó para enxugar o suor que escorria da testa e pingava no chão.

No próximo exercício, contei quase trinta abdominais que as ioguetes fizeram. Com minha pança peluda, consegui fazer três e, em seguida, perguntei baixinho à ucraniana se ela sabia o telefone do SAMU, porque faltava pouco para eu infartar de verdade. Nessa hora, só consegui me visualizar deitado em uma maca de hospital enquanto os médicos faziam uma ponte de safena. No dia seguinte, jornais do mundo inteiro teriam a manchete: 'brasileiro morre do coração durante aula de ioga rodeado por nove belas mulheres’.

A reportagem iria entrevistar as pessoas do meu convívio social. Minha ex-chefe no jornal certamente diria: “se ele ainda trabalhasse aqui, continuaria indo para o bar toda noite e essa tragédia nunca teria acontecido, isso é um alerta para todo esse povo aí que não bebe, agora dá licença que a cerveja está esquentando e vou brindar pelo presunto”. Os donos dos bares da cidade iriam à imprensa perguntar quem paga os fiados, pois defunto não paga conta. Os companheiros de copo responderiam que às vezes ele até era um cara legal, mas fiado é sagrado e cada um paga o seu.
 
IOGA MATRIX –
E foi perdido nesses pensamentos que a instrutora de ioga me chamou a atenção novamente, pois eles já estavam em outro exercício enquanto eu ainda tentava empurrar a barriga para o lado e encostar o joelho na testa há quase dez minutos. Logo, uma hora havia se passado, me vi deitado no chão pedindo ajuda da maldita ucraniana, pois agora eu não conseguia mais levantar e estava literalmente todo quebrado. Depois de uns minutos sem conseguir me mexer direito, as gurias me colocaram de pé e fomos embora.

nó humano


No caminho até a parada de ônibus, a ucraniana era só felicidade. Fiquei em dúvida se ela não tinha dado um tapinha com o fumo da Ucrânia. Achei melhor não perguntar, porque afinal eu estava me sentindo estranhamente bem. Minhas pernas estavam leves, a pança peluda parecia mais confortável, eu caminhava quase que deslizando e respirava muito melhor.

A ucraniana me deu um beijo demorado na testa, piscou o olho, pegou o busão e foi embora. E nem me dei conta da cena. Continuei ‘flutuando’ em direção ao cafofo, tudo parecia mais leve e singelo, a respiração límpida. Eu nem lembrava mais das nove mulheres da aula de ioga. E foi aí, naquele exato momento, que entendi o que estava realmente acontecendo. Não era o maconhão, eu estava sendo sugado para a Matrix da ioga. Toda aquela sensação de leveza e de um mundo melhor não poderia ser real.

Ainda flutuando, parei em frente ao bar vizinho de casa e entrei. Pedi um suco de laranja natural e uma caneca de cerveja preta. Lembrei-me do comprimido azul e do vermelho na Matrix. Olhei ao redor. Encostado na parede, um barbudo fumava um charuto e segurava um copo de uísque. Ao lado, um bêbado dormia com a cabeça e os braços debruçados na mesa, segurando a garrafa de cachaça quase vazia. As poucas mulheres no lugar, bom, elas tinham barriga e estrias, como quase todas as mulheres da vida real.

ioga matrix

Eram pessoas de verdade, sem ilusões de Matrix, apenas desilusões reais. Virei a caneca de cerveja de uma golada só, mais ou menos na hora que o garçom chegava com o pratinho de calabresa com fritas afogados no óleo de anteontem. Comprei um charuto e dei um tragada que encheu meu pulmão de substâncias cancerígenas e maledicentes. E enfim, sorri. Estava libertado, de volta ao mundo real.
 
Amaldiçoei aquela formosura ucraniana durante o resto da noite. A verdade se abriu. Afinal, só mesmo em um universo paralelo para uma loira de olhos azuis, linda e esbelta, dar mole para um papudinho entrevado. E cá para nós, nenhuma mulher de verdade tem índice de gordura corporal igual a zero, só mesmo na Matrix. Deixei a conta do bar no fiado de sempre e fui dormir feliz, abraçado com minha gastrite 100% da vida real.


Escrito por Paulo Rebêlo às 09h26 [ ]
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O que é hipopocaranga?

É fácil descobrir. Feche os olhos, lembre-se da sua esposa nos primeiros meses de casado, respire fundo, abra os olhos e olhe para sua esposa agora. Tente definir o que você está vendo. Você sempre soube, só não conseguia encontrar uma palavra para definir o canhão em que ela se transformou. Ela é uma hipopocaranga.

As mulheres têm uma capacidade enorme de entrar em metamorfose durante um relacionamento seguro. Parte das mulheres entra em processo exploviso-gordural. Consegue ganhar quilos extras em uma velocidade diretamente proporcional à nossa queda de cabelos. Quanto mais elas engordam, mais vezes elam nos perguntam se estão gordas. A pergunta em si não seria um problema, se pelo menos ela perguntasse sem olhar fixamente para o espelho. O que nos leva a crer que, além de gorda, ficou cega. E ainda tão nova, meu jesus.

Outra parte das mulheres, aquelas que foram beneficiadas pela natureza em não engordar - por mais que comam feito uma jamanta - conseguem compensar a falta de gordura com excesso de penduricalhos ou exigências de madames. Em outras palavras, se tornam frescas. No início, era tão simples, usava aquelas saias meio hippie, aqueles vestidinhos lindos, os chinelinhos de couro que você adorava. Hoje, além de se pintar feito um índio guerreiro, usa meia dúzia de pulseiras em cada braço, colares, brincos, um monte de bagulhos e acessórios, quase um trio-elétrico no Carnaval da Bahia. Sem noção que existe a lei da gravidade no planeta Terra, adora usar longos e ridículos decotes que apenas revelam o seu desespero. Viajar, só se for para ficar em hotel bom. Restaurante, só com comida de "qualidade", que quase sempre significa uma grande conta e um pequeno prato. Parece que nem lembra daquele bife cheio de nervo que a gente comia e ninguém reclamava.

Por fim, tem o apocalipse. São aquelas esposas que, além de engordarem feito um hipopótamo, também conseguem se transformar em verdadeiras barangas. São as hipopocarangas. Não é hipopobaranga para elas não descobrirem que estamos nos referindo às nossas esposas barangas. Claro, toda regra tem exceção. Você pode fazer parte do 0,1% da população que foge à regra. Se levarmos em consideração que o mundo tem 6 bilhões de pessoas, até que 0,1% não é nada ruim.

o apocalipse


Este pseudo-blog é mais um repositório (não confundir com supositório) de crônicas de relacionamentos e comportamento, publicadas em jornais regionais sem o menor controle de qualidade, sites na web que ninguém conhece e revistas que ninguém lê. Faz parte de mais um projeto inútil do escrevinhador Paulo Rebêlo, com ilustrações de Hugo Luigi.


Escrito por Paulo Rebêlo às 23h19 [ ]
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