Crônicas Ranzinzas - Hipopocaranga - UOL Blog
 
Ver mensagens anteriores


rebelo.org


» Indique este blog
» Expediente
 






 Relacionamentos



As mentiras que a gente conta

Paulo Rebêlo

Ela não significa nada. Foi apenas uma relação passageira, tão rápida que mal a reconheci. É assim que você tenta explicar quem é aquela mulher cujos olhos brilhavam quando passou e falou com você.

Felizmente, quem estava ao seu lado na ocasião ficou mais interessada em olhar a silhueta para depois perguntar se "ela era gorda assim" quando vocês namoraram. Mas não foi namoro, apenas um deslize afetivo, nem há de se lembrar. De repente, até se acredita na história.

E pela porta do restaurante ela se vai. O mesmo restaurante que vocês tanto frequentavam. O mesmo que, um dia, alguém disse ser a marca registrada do relacionamento de vocês, quase a segunda casa. O que mais poderia ser dito?

Você poderia pedir para ser esfolado e morto. Bastava dizer que pela porta saiu a única mulher que fez diferença de verdade. A mulher que você penhorou a alma ao diabo achando que seria a mãe dos seus filhos. Findo o contrato, ele veio cobrar das mais variadas maneiras e por tempo infinito: noites insones, relacionamentos falidos, corações partidos, parentes esquecidos, trabalhos perdidos.

Pequenas mentiras podem até ser saudáveis, desde que morram ali. As pessoas acreditam em pequenas mentiras, cientes que podem evitar grandes estragos.

Qualquer um passa incólume com uma história dessas. Afinal, se todos nós cometemos deslizes relacionais, é natural que, para outrém, aquela mulher possa ser um dos seus descuidos do passado. É um história pontual, fácil de contar, a vida segue e a cerveja desce.

Difícil é passar incólume quando uma foto dela cai de um livro na estante.

Folhas viradas - O argumento da relação passageira ruiu. Assim como rui qualquer argumento quando encontram uma foto perdida entre as páginas dos seus livros. Por mais que seja verdade, e geralmente é, o fato de você sequer lembrar que havia uma foto perdida dentro de um livro de Gabriel Garcia Marquez, lido há tantos anos, não facilita nem um pouco.

Dizer que jogou tudo fora, não sabe como aquilo foi parar ali, só vai piorar. Nem as grandes verdades conseguem apagar uma pequena mentira.

Como o diabo é tinhoso e primo de Murphy, sempre pode piorar. É a sua insegurança de não saber se há marcas passadas em outros livros. Você não os folheia há anos, como saber? E aquela gaveta, a única gaveta fechada a chave do seu apartamento, por causa de documentos e cartões de crédito? Será que não esconde uma foto de vocês dois juntos, felizes? É o primeiro pensamento a vir à mente da mulher a sua frente. O primeiro de uma centena.

É comum se ver num caminho sem saída: esquecer esse dia e viver em eterna insegurança ou vasculhar a casa para ter certeza que aquela foto – e "aquela sirigaita" – não é mais importante para você. Em ambos os caminhos, nada volta a ser como antes.

E quando ela bate a porta da sua casa e vai embora, com raiva e com razão, você não sabe do que tem mais medo: de que ela não volte ou de que você não volte. Não volte a ter noites tranquilas de sono e não pensar se ela, o fantasma da foto, está mesmo tão feliz quanto disse que estava. Porque você tem certeza que não está, mas sempre preferiu acreditar no contrário.

Cães e gatos – Quando uma mulher cita um indivíduo e o chama de cachorro, canalha, safado, é melhor você cancelar a cerveja e pedir uma garrafa de pinga. E se você conhece o cão da história, é melhor aproveitar a viagem do garçom e misturar a pinga com uísque. Falsificado, de preferência.

Calado, você engole. A pinga e o discurso de que ele não vale nada. Foi um deslize. Ou melhor, um momento de carência afetiva. Se ele ainda for importante na vida dela, então o discurso será de ter sido um momento de burrice. Céus, como fui tão burra? Se for um pouco experiente, ela ficará calada e não irá completar a frase dizendo que "ainda bem que você apareceu na minha vida".  Tem gente que diz isso. Sinceramente, teria sido melhor deitar na mesa, levantar a saia e chamar o cão-cidadão.

Volte para casa o mais bêbado possível, pois talvez no dia seguinte você não lembre de nada. Jogue fora qualquer doce ou chocolate da geladeira, para não correr o risco de ingerir glicose e, assim, evitar uma amnésia alcoólica induzida.  Se for religioso, peça proteção ao bom deus, bata sua cabeça com força contra a parede e reze para ter uma isquemia temporária e acordar sem saber o que houve, desmiolado.

As mulheres têm uma facilidade imensa de deixar as coisas para trás. Obviamente não de fato, mas pelo menos de aparência. É uma das qualidades que a maioria dos homens inveja, porque a gente não consegue. A partir daquele porre de pinga com uísque, nada também será igual.

Afinal, você é homem como qualquer outro, sabe bem o que passa pela cabeça de uma mulher quando o jargão "ele não vale nada" sai por aquelas bocas. É tão verdade que não valemos nada, na maioria das vezes, como é verdade que eventualmente valemos tudo para alguém. O sonho de ir embora, de que se peça o divórcio, de voltar no tempo e aproveitar tudo de novo.

As pessoas sensorialmente avançadas e quimicamente otimistas sabem que a vida é assim, dá muitas voltas, as relações vão e voltam, nem sempre permanecem, deslizes são constantes, as carências também, o importante é tentar, nunca desistir e procurar dar o melhor de si no presente, não no passado.

As pessoas normais sabem que é só lorota e falam a mesma coisa apenas para os outros, nunca para si. Em ambos os casos, a vida segue, mas os normais terminam formando família com quem se adequa a certos parâmetros, nunca quem nos tira o sono e nos faz contar os minutos no relógio para dar um abraço.

Fantasmas são tão comuns quanto as carências afetivas das pessoas. A única diferença é que fantasmas têm sete vidas. Às vezes, basta uma garrafada para sumir. Outras vezes, a única saída é declarar moratória e pedir um financiamento ao diabo. (rebelo.org)


Escrito por Paulo Rebêlo às 01h31 [ ]
[ envie esta mensagem ]



Mulher para casar é ambulância

Paulo Rebêlo

Aquela ali é para casar. Eis uma expressão enigmática para a maioria das pessoas. O que faz um homem apontar o dedo e achar que aquela mulher é para casar?

Já me responderam de diversas maneiras, sempre honestamente, em vias alternadas e não necessariamente excludentes: tem que ser rica. Tem que ser bonita. Tem que ser magra. Tem que ser inteligente. Tem que saber conversar. Há de ter senso de humor. Deve ser maleável. Paciente. Carinhosa.

É comum – para homens e mulheres – estabelecer critérios. As variações são inúmeras. E é claro que, às vezes, somos tudo isso e mais um pouco, mas nem assim dá certo.

Certa feita, porém, tive que dar o braço a torcer a um critério inusitado. Para aquele colega, mulher para casar tinha que ser aquela que, quando você chega em casa do trabalho tarde da noite, cansado, basta sentar à mesa e dizer: ‘mulher, bota meu cumê’. Nada mais.

Ela pode ser louca, ciumenta, surtada, balofa, cavernosa, não importa. Se você chegar dizendo "mulher, bota meu cumê" e ela vem com um prato de comida quentinha, todo o resto está perdoado e nada mais importa.

O pior é este citado cidadão ser magro, não é comilão. O fetiche é a condição de ser servido ao chegar do trabalho, sem precisar ir para a cozinha esquentar ou preparar algo comestível. E então ele fica lá, comendo a gororoba requentada de frente à TV. Depois vai dormir feliz da vida.
 
Tentativa e erro –
Meus critérios sempre foram tão simples que dá até vergonha. O primeiro e primordial é a que tal mulher não pode ser para casar, seja lá o que isso signifique. E o segundo, óbvio, é que não pode ser abstêmia. Afinal, com religião não se brinca.

Apesar de ser comilão e admirar bastante as mulheres que cozinham bem, a idealização de "mulher, bota meu cumê" não me convence. Desafiado, tive que explicar que já tive, um dia e num passado distante, meus próprios critérios.

Para começar, eu teria que chegar em casa bêbado de madrugada, talvez tropeçando em objetos pelo caminho, deitaria na cama ainda de roupa e sapatos, sem tomar banho; a mulher iria carinhosamente me abraçar e ficar coçando minhas costas até eu dormir – o que levaria em torno de quinze a vinte segundos – mas não poderia surtar com o acentuado bafo de cana ou o cheiro de charuto na camisa.

Ela simplesmente aceitaria a condição etílica-terminal do companheiro, e até ficaria feliz, porque ele estava ali aproveitando o carinho e dormindo abraçadinho com ela. Eventualmente peidando, é verdade, porque calabresa com fritas ao molho de óleo faz dessas coisas, mas continuaria dormindo abraçadinho do jeito que elas tanto gostam.

Bom, na primeira vez que fui fazer isso de verdade, a criatura fechou à chave a porta do quarto até eu voltar do banho. Resignado, terminei adormecendo na privada e caindo pelado no chão gelado do banheiro.

Na segunda vez, fui parar na sala. Da minha própria sala, devo realçar. Acontece que o sofá tinha tanto bagulho em cima que terminei dormindo no chão e acordando debaixo da mesa, sem entender direito o que havia acontecido. Foi por causa do sol, descobri depois.

Na terceira vez, não tinha mais ninguém na cama.

SAMU RELACIONAL –
Se é para idealizar a mulher para casar, boa parte dos homens – eu incluso – sonharia mesmo com a mulher-ambulância.

Às vezes, quando se está no bar às altas horas da madrugada, você daria todo o seu reino por alguém que chegue ali, pague a conta, lhe levante do chão, eventualmente dê um chute no vira-lata que está zelando pelo seu sono, lhe coloque no carro e leve para casa. Uma espécie de ambulância particular. E que esteja cheirosa, porque ninguém é de ferro.

Não há nada pior do que chegar a esta condição deprimente – e reincidente – tendo que fazer tudo sozinho, seja caminhando, de táxi, de bacurau ou esperando amanhecer para pegar o ônibus de linha.

O resultado nunca é previsível. O motorista do táxi vai se aproveitar e cobrar mais, porque você não consegue enxergar direito o taxímetro. Você vai pegar o ônibus errado, se perder e cair dentro de uma favela. Você vai adormecer no assento e só acordar no terminal, do outro lado da cidade. Você vai esquecer que se mudou e, todo prosa, pega a linha para sua casa antiga, que talvez nem exista mais. Ao chegar lá, lembra que está no lugar errado e não tem mais dinheiro para a passagem de volta.

São situações ridículas, porém reais, mas que poderiam ser evitadas se a sua companheira não se importasse em virar ambulância de vez em quando e com o passar dos anos. Não com frequência, claro, porque a gente não quer abusar. Tipo, três vezes por semana, nada do outro mundo.

Você telefona e ela pode até surtar, reclamar, lhe xingar, dizer que vai se separar, que vai botar um par de chifres com o porteiro, lhe chamar de bêbado e maconheiro... tudo bem, você aguenta calado, até concorda, mas ao final ela vai pegar o carro, pagar a conta no bar, lhe arrastar pelos braços até o banco de trás e ocasionalmene esfregar um pedaço de chocolate na sua boca se você estiver se debatendo com hipoglicemia.

Com a mulher ambulância, você nem se importaria de adormecer na privada, de dormir debaixo da mesa da sala. Quem sabe, nem se importaria até de tomar banho antes de dormir. Pelo menos, estaria no conforto do lar, saberia que de manhã cedo sua companheira estaria ali, para uma eventualidade qualquer de precisar ir ao hospital injetar glicose ou se afogar na própria baba enquanto dorme.

A mulher-ambulância poderia, quiçá, pedir uma compensação. Você poderia ir fazer aquelas compras de cinco horas e meia (seguidas) pelo shopping. Esperar ela terminar de fazer o cabelo no salão, pacientemente. Você poderia levar os filhos (dela) para o playcenter enquanto ela convida as amigas para um chá da tarde e passam o dia falando mal das amigas que não foram.

Enfim, a mulher-ambulância faria o mundo masculino muito mais feliz e revolucionaria todo o conceito de "mulher para casar".


Escrito por Paulo Rebêlo às 02h54 [ ]
[ envie esta mensagem ]



Pequenas burguesas, grandes afeições - parte 2/2
Paulo Rebêlo

As mulheres reclamam que os homens só pensam em sexo, afirmação com a qual não concordamos, porque também pensamos em cerveja e futebol na TV.

Depois de refletir sobre os últimos dez anos na crônica anterior, a gente chega à conclusão de que as pessoas precisam ter prioridades na vida. E por que dez anos? Porque em um certo ponto desta década, não lembro exatamente quando, decidi que eventualmente sexo teria que dividir espaço com a mesa de bar na tal lista de prioridades. Assim, ninguém pode dizer que só pensamos naquilo, até porque as pequenas burguesas dos bares não bebem, apenas fingem que bebem, o que diminui em 90% nossa atenção a elas.

O problema é que a maioria das mulheres não consegue conviver em harmonia com essa realidade de prioridades. Elas até dizem que conseguem no início, mas depois reclamam, reclamam, reclamam. No entanto, o mais curioso não é a reclamação em si, mas a correlação que já conseguiram fazer com assuntos completamente diferentes – sem o menor sexo, ops, quero dizer, nexo aparente.

Certa feita, uma pequena burguesa assumiu: “às vezes você me deixa no meio da madrugada sozinha na sua casa porque um amigo seu levou chifre (de novo) e precisa beber e conversar com alguém, aí você vai para o bar e só volta de madrugada com bafo de cerveja, quase na mesma hora que estou saindo para trabalhar de barriga vazia porque sua geladeira só tem coca-cola light e sem gás, latinha de cerveja, garrafa de rum, licor, resto de comida estragada do China da 48 e aqueles malditos biscoitos integrais que eu detesto e nunca entendi por que diabos você acha que são saudáveis. Custava fazer feira? Custava? Uma vez na vida, pelo menos?

geladeira vazia

E assim, de repente, o sexo e o nexo perdido da madrugada deixam de ser prioridades para elas também. As pequenas burguesas adoram reclamar da casa dos outros, sempre reclamam da falta de comida na geladeira. É fácil reclamar quando você não tem que pagar pela feira e fazer todo o esforço envolvido no processo de ir e voltar do supermercado.

E eu fico matutando o que custaria também se, antes de chegarem ao nosso feudo, elas humildemente parassem no mercadinho para comprar ao menos um lanche, esses sanduíches prontos de microondas, enfim, até mesmo uma bolacha Cream Cracker sem manteiga, qualquer coisa que faça elas pararem de reclamar de manhã cedo quando você está no auge da ressaca. E eu até me considerava um pequeno burguês por ter microondas em casa...

Na mesa de bar, todos iguais. No fundo do copo, nem tanto –

Se os economistas dizem que em economia não existe almoço grátis, os garçons dizem que no bar não existe café-com-leite. Mulheres que sabem (e gostam) de beber são cada vez mais difíceis de achar. Quando encontro uma, nem sequer me importo se é bonita ou feia, gorda ou magra, ela se torna simplesmente um ser iluminado e santo.

As papudinhas estão em notória extinção, infelizmente. As pequenas burguesas só pensam em academias, grifes, ir para balada aos 20 e casar antes de chegar aos 30. Quando sentam na mesa de bar resolvem pedir uma.... caipirosca. É ultrajante. Um disparate à falta de cabelos em nossa crescente careca. Por isso me orgulho tanto de algumas companheiras de copo que entendem a verdade etílica universal: na mesa de bar, somos todos iguais. Desde que você não peça uma caipirosca ou qualquer dessas bebidas coloridinhas e ridículas que parecem ki-suco.

Uma das pequenas burguesas, certa vez, virou para mim na mesa de bar e disse: “cara, você tem preconceito contra mulher que não bebe, contra mulher que bebe caipirosca, contra mulher fresca, contra mulher que ainda mora com os pais, contra mulher que não lê jornal, contra mulher que tem carteira de motorista e não consegue subir ladeira, enfim, o que diabos estou fazendo aqui tomando uma cerveja com você, me explica, sinceramente?

Sinceramente, eu também queria saber. Mas, nessas horas é melhor nem pensar no assunto porque a cerveja estava esquentando rápido enquanto ela tagarelava. Quando reclamam dos meus preconceitos etílicos (e elas sempre reclamam), a resposta é simples. “Acho que preconceito é para ser exercido, mas detesto gente preconceituosa, não estou entendendo porque você está tendo preconceito comigo somente porque estou a exercer meus preconceitos de forma livre e democrática. Acho que você está sendo preconceituosa com os meus preconceitos, isso revela um preconceito ainda maior e preconceito é uma coisa muito feia…”. Ela pediu outra cerveja e jurou que aprenderia a beber, só para não ouvir isso outra vez.

primeira aula é grátis

Para terminar a nossa lista de prioridades para o ano de 2007, que só vai começar mesmo depois do Carnaval como sempre, deveríamos todos começar pela mesa de bar. Afinal, é na mesa de bar que todo início de ano a gente relembra as pequenas burguesas que passaram e as grandes afeições que ficaram. Porque depois que todas passam, no fundo do copo sempre resta apenas uma lembrança que não se afoga. Até que a cerveja acaba, a luz se apaga e você se adapta. Lembranças de burguesas, agora só na base do fiado e que seja assinado com lápis grafite, para apagar com a espuma que cai do copo. [hipopocaranga]


Escrito por Paulo Rebêlo às 21h42 [ ]
[ envie esta mensagem ]



Pequenas burguesas, grandes afeições – parte 1/2
Paulo Rebêlo

Janeiro é quando as pessoas costumam fazer aquelas listas inúteis de prioridades. É sempre a mesma coisa, em fevereiro a gente nem lembra mais da lista e no final do ano não fizemos metade do que imaginamos. E no próximo ano, o ciclo se repete e, num piscar de olhos, uma década se passa e a gente ainda não escreveu aquele livro, não plantou aquela árvore e não fez aquele filho. (oficialmente)

Em vez de perder cinco minutos pensando sobre nossos feitos e desfeitos, poderíamos perder cinco minutos refletindo sobre os feitos e desfeitos das outras pessoas na nossa vida e fazer uma lista de prioridades contra elas. É que depois de alguns anos, a gente olha para trás e percebe que, afinal, aquelas burguesas e patricinhas não eram tão burguesas e patricinhas assim. Hoje, quem sabe, tenham se transformado em donas-de-casa.
 
BALDE DE ÁGUA FRIA –
Sempre tive azar com chuveiros elétricos. Sempre queimavam e faltava-me habilidade mental para trocar a resistência. Resultado é que por vários meses não havia chuveiro elétrico, era banho gelado mesmo. Até resolver consertar para, dois meses depois, a resistência queimar novamente. Enchia o saco e ficava sem água quente até por seis meses ou mais.

Para homem, que toma banho rápido e pode fazer uns pós-de-chinelo (eu fazia três...) antes de entrar no chuveiro, água fria não é um martírio tão grande em uma cidade tropical. Mas sempre fiquei pensando como deve ser ruim para as pequenas burguesas - que usam xampú, condicionador, creminhos, sabonetes líquidos e outros bagulhos - tomarem banho gelado logo cedo pela manhã.

três pó-de-chinelo


Uma delas tinha a infelicidade de trabalhar às 6h. Quando a criatura virava a noite de arrego no cafofo, o despertador tocava às 5h e ela olhava para mim (que devia estar roncando feito um trator) e falava: “nem eu sei como ainda tenho coragem de dormir aqui, sabendo que você não vai consertar esse chuveiro, vou ter que tomar banho gelado às 5h enquanto você só vai acordar às 10h, só vai tomar banho de meio-dia, depois de almoçar naquele botequim imundo antes de pensar em começar a trabalhar para pagar o fiado naquele outro bar fedorento, mas uma maldita resistência de chuveiro elétrico você não compra...”

Eu até entendia a revolta da criatura, mas sempre achava que ela não ia mais ter paciência para voltar. Então, terminava nunca comprando uma resistência nova para o chuveiro e economizava na conta de energia no final do mês.

ESPORTE PREFERIDO –
Algumas mulheres têm como esporte preferido o ato de reclamar. Reclamam de tudo. Algumas dizem para os namorados: “sua casa vive cheia de poeira, você guarda esses jornais velhos na sala, no armário e até no quarto, parece um velho, e você sabe que sou alérgica a poeira, sempre que chego aqui vivo espirrando”.

Novamente, eu ficava me perguntando por que elas nunca se candidatam a fazer uma faxina, arrumar (e catalogar) meus jornais velhos ou, mais prático ainda, custear uma faxineira para fazer o serviço? Tem gente que acha que dinheiro cai do céu ou nasce em árvore. E é o que sempre digo: minha filha, se vaca voasse, chovia leite.

vaca não voa

Certa feita, a luz do banheiro queimou. Queimou várias vezes, aliás. Não sei o motivo de sempre queimar no banheiro. Acostumei a usar o recinto no escuro e também passava meses sem trocar a lâmpada. Era uma economia na conta e, de quebra, ainda estava treinando minhas habilidades ninjas na escuridão, como fazer a barba sem luz. De noite, bastava deixar a porta aberta que dava para tomar banho numa boa com o reflexo da luz da cozinha. Fiquei até feliz, pois percebi que não sou tão míope quanto imaginava.

Evidente que as reclamações não tardaram a aparecer: “as necessidades das mulheres no banheiro não são iguais a dos homens, é uma droga ficar aí dentro com a porta fechada, no escuro total... olha, sabe de uma coisa, só volto aqui quando você consertar essa lâmpada.” Diziam.

Eu ficava calado, matutando com meus botões e me perguntando por que elas nunca chegam trazendo uma lâmpada nova? Melhor ainda, vai lá e troca. Segunda-feira tem mais. [ hipopocaranga ]


Escrito por Paulo Rebêlo às 23h12 [ ]
[ envie esta mensagem ]




[ ver mensagens anteriores ]